that garden

that-garden-foto-by-patrick-brock
a poem to Patrick Brock 
about “African garden”
a picture sent from Mozambique, right now.

 
that garden is not just a garden
it has two trees and three thousand
African beats, lion and bee sounds between the leaves
can you also listen to this?

that garden is just a garden, i know,
not what i’m saying but what you’re seeing:
some green patch behind a grey building where you work
can you feel the infinite silence inside
what does it mean?

there are no lions or bees at that garden
just some grass, one by one saying the same
they are saying “who are you? why don’t
you stay here one minute more,
resting from your travel and waiting for the announcement
that a new life is arriving, your son, your daughter,
something new”?

that garden is not just a garden
it’s just a picture to me
it’s a chorus, singing the African beat
they are what you can do
with your grey and your green sides together

that garden is just a garden?
i’m not right, but this is just a poem…


katherine funke, feb/2015
also published at Ultralits.
 

Anúncios

nossa oficina em Ilhéus

oficina-ilheus-primeirodia

FOTO: exercício de leitura de poesia à luz de Ezra Pound. Ao fundo, a biblioteca e a exposição de fotos: dois dos projetos da Associação Filtro dos Sonhos, de Ilhéus (BA). Na mesa, os alunos da oficina de criação literária que dei ali na semana passada, pelo projeto da Editora Casa Aberta Livros Artesanais, selecionado pelo Edital de Economia Criativa da Secult/BA. (Divulgação) 

DE EZRA A LYGIA

A Associação Filtro dos Sonhos funciona em uma garagem no Alto de São Sebastião. Da porta se vê o mar, a praia, a ladeira, as pessoas subindo com o queixo apontado pro alto, para ali mesmo, exatamente onde estamos sentados, trabalhando o texto. Um cheiro de mar sobe a ladeira junto, o sol bate à porta de tarde nesta época do ano. As pessoas sorriem quando vêem a porta aberta, as fotografias na parede de pedra, retratos de pessoas e locais importantes para a memória do bairro.

Às vezes, alguém fecha a porta da garagem e projeta um filme na parede. No nosso caso, vimos um conto de Lygia Fagundes Telles, um curta-metragem japonês (Atama Yama) e outro baiano (Carreto), e no escuro mesmo surgiram as primeiras perguntas, as  vontades de papel em branco e luz acesa para as ideias.

E no segundo dia a aluna Rava Midlej trouxe um filme seu, dezenove minutos de poesia, e até agora “penso mesmo é no meu sapato vermelho” (brinco aqui com umas palavras do filme, uma poesia de Rava declamada por José Delmo em uma cena que não me sai da cabeça).

Nesse ambiente tranquilo e acolhedor, exercitamos a criação literária, a sensibilidade e o ouvido durante quatro tardes, de 4 a 7/5 . Reservamos um dia para trabalhar poesia e dois para conto; o último, para uma finalização do material produzido. No caminho, subimos nos ombros de gigantes: de Ezra Pound a Paulo Leminski, de Anton Tchecov a Ernst Hemingway, de Virgínia Woolf a Lygia Fagundes Telles.

Voamos alto… As produções saíram tão boas (algumas delas já nasceram prontas e outras cresceram a partir das observações do grupo) que a maioria deve ser transformada em livro artesanal na próxima etapa do projeto, uma oficina de ilustração com Vânia Medeiros. O grupo já havia passado pela oficina de encadernação com Laura Castro, e um varal com algumas de suas criações pode ser visto ao fundo da foto abaixo.

lucia

FACES. Tem mais fotos das diferentes fases e faces da nossa oficina de quatro dias no perfil da Filtro dos Sonhos no Facebook. Esta em PB aí é da fotógrafa Ana Lee e foi um flagrante da nossa última tarde de trabalho, um momento de luz para Lúcia (nossa aluna mais nova, na foto com a mão no peito), destaque no grupo pela precocidade criativa.

a yoga que não fiz

a yoga que não fiz
é a música que não cantei
o café quente que bebi muito cedo,
o café quente e pesado de açúcar e medo

a yoga que não fiz
é o livro que abandonei pela metade
e o ácido no estômago, montanha
russa, dúvida, desengano

a yoga que não fiz
é a úmida destreza do teu gesto
de adeus urgente às sete em ponto

a yoga que não fiz
é o tapete pronto para ninguém:
vazio de mim, nada além

*

nunca li tanta poesia

a ilha do Campeche vista do Morro das Pedras. foto minha mesmo, de celular.

Nunca li tanta poesia – e sei a causa. É porque estou escrevendo um romance. Queria fazer um romance tão conciso, perfeito e belo quanto uma poesia. Ou uma canção; pois também nunca ouvi música com tanta atenção às letras.

Para compor Viagens de Walter tenho buscado inspiração lírica, muitas vezes dolorosa. Outras tantas, de um êxtase estético que me deixa por dias ainda chegando no ou voltando do outro plano para o qual as palavras me levaram.

Tenho cá comigo que preciso parar com esse vício. Talvez tomar um banho no mar gelado aqui do Sul da Ilha de Florianópolis e depois deixar o vento secar as gotas até que, descansada, possa inaugurar uma sensação só minha novamente.

Sei disso, mas cada dia desço pra dentro mais e mais poesia (ao menos não pego um resfriado!). Frito meus miolos, fervo minha alma, faço outro café ou bebo outra taça de vinho e abro as páginas já escritas por outros como se elas pudessem me oferecer um certo alento.

Vertigens
A verdade é que fujo da verdade, que é esta e apenas esta: apenas as palavras cometidas por mim mesma, neste momento, são capazes de me acalmar a ponto de ficar satisfeita com a arte da literatura. As outras me instigam, me desafiam, mas as minhas são a prova concreta das minhas vertigens. Das minhas viagens… (ou de Walter, meu personagem…)

E é por isso que estou tão longe deste blog, sem dar notícias de nada. Por causa de Viagens de Walter. Mas em breve darei mais notícias. O livro sai em setembro, em formato digital, gratuito, com lançamento na Barca dos Livros, em Florianópolis.

(foto: Morro das Pedras, Florianópolis, 2013)

exercícios de fé

hilda3na foto, hilda hilst

O ano começou com muitos exercícios de fé.

Fé no ofício de escrever.

Fé que hei de levar comigo todos os dias, especialmente neste ano, em que terminarei o romance “Viagens de Walter” durante residência artística (bolsa Funarte) no mágico Ponto de Cultura Biblioteca Barca dos Livros, em Florianópolis (SC).

Exercito o ofício com a mesma necessidade de quem respira. Alimento-a com café e sonho, com madrugadas insones, com jazz e silêncio, com sede de palavras novas. Mas a mudez às vezes me arrebata um dia inteiro. Às noites, explico aos demais da casa que estou cansada. Então escolho qualquer canto silencioso, abro o caderno e escrevo – de lanterna na mão para não acordar o neném.

Essa fé é assim: janeiro, sol alto, Salvador, Bahia, e ainda nenhuma praia no meu verão. Mas alguma poesia, sim, isto houve, em parte graças a uma oficina literária muito honesta com a poeta Angelica Freitas, que veio de Pelotas (RS) para Salvador (BA) especialmente para o projeto Escritas em Trânsito, da Funceb.

Angelica faz poesia de alta qualidade (reconhecidamente; a primeira edição de seu livro “Um útero é do tamanho de um punho“, lançada em outubro,já esgotou) e, ademais, é pessoa simples, simpática, interessada no ser humano com uma grandeza de espírito inominável.

Então, na oficina, foi super generosa conosco, loucos fechados dentro de uma sala na Biblioteca Pública dos Barris durante três tardes de janeiro, pleno verão na Bahia.

A poeta usou maneiras muito diretas, desprovidas de maquiagem e máscaras, para nos incentivar a “escrever sempre, escrever todos os dias”. Basicamente, ela nos fez ver um pouco o mundo através de suas lentes, ao nos instigar a observar e escrever (“em pé, mesmo”) a partir do que víamos: usar palavras de cartazes como pontos de partida, usar a própria vida como matéria-prima.

E me fez, particularmente, amar ainda mais Hilda Hilst e interessar-me por três outros poetas que ainda não conhecia: Cezar Aira, William Carlos Williams e Alexander Rios, este último autor de um verso-mantra, El tiempo vale oro.

Então ainda me perguntam se oficina literária vale a pena, se não era melhor ficar em casa escrevendo. Pode ser que para algumas almas demasiado seguras do que fazem (ou, do contrário, demasiado sensíveis às opiniões alheias), o melhor seja ficar em casa mesmo, pois em uma oficina é praticamente certo que você terá de ler o que escreveu em voz alta, e explicar-se e reconhecer-se certo ou equivocado nos caminhos que escolheu.

Para mim, valeu: em três tardes e muito papel jogado fora, fiz ao menos alguns versos dos quais gostei. No último dia, especialmente, quando saímos pelos corredores para coletar palavras escritas que nos servissem de ponto de partida.

Parei em frente a um quadro imenso (1,5m x 1,5m, ou mais, talvez) de uma grossa placa de madeira entalhada, próximo ao “elevado” (elevador, sem o ‘r’, como grafado na placa do terceiro andar), e vi a seguinte placa:

Cicatriz II. Obra doada pela artista Jaci Mattos por ocasião do bicentenário da Biblioteca Pública do Estado da Bahia.

E veio a poesia:

Doam-se cicatrizes

Então uma cicatriz pode ser doada?
– Sim, uma cicatriz pode ser doada.
Então quero doar umas três.

Quero grudá-las nas paredes
de algum lugar bicentenário:
mandá-las para a memória sagrada
de alguma instituição

Para ser apreciada como
uma obra da pesada,
uma grande obra
pensada para a multidão.

*

No fundo, a aula de Angelica foi esta: aprender a ver. E insistir na prática diária. Então sigo em meus exercícios de fé, dia após dia…

*
Notícia aos leitores das entrevistas de investigação. Em breve, novidades. Desta vez, com poetas.

uma história em verso



inocentes

ambulância vem desesperada com a sirene ligada
desde longe tentando abrir caminho: confusão na pista.

você abre a faixa central quase colando em um fiat
dirigido por uma mocinha surda e lenta, fechada em vidro fumê.

você trava os dentes. buzina.
– caralho! desliga o celular, querida.

ela enfim cede, inocente.

a ambulância passa.
você suspira. fez sua parte. fez, sim.
a mocinha pira (não entendeu nada).

no instante seguinte,
a sirene silencia.

o motorista reduz a velocidade.
sobe a calçada. estaciona.

o paciente morreu.

katherine funke, abril/2012.

quixotescas

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
Gregório de Matos

1. Me segura, Waly Salomão, durante a amamentação. Do futuro eu não sei: nem do meu, nem do meu filho, nem de ninguém. Quem souber aí, levanta a mão e ganha um doce! Sem grilos. O presente é ler. Ler. Ler. Armarinho de Miudezas me faz companhia no momento. Já estive com versos de Drummond, com o Spleen de Paris de Baudelaire, com os que me recebem de braços abertos e me conduzem alerta, olho-no-papel-outro-no-peito, madrugada adentro, manhãzinha, seja que hora for.

Lunática? Waly me entende. Salve, Sailormoon. Me salve.

Ser poeta é um tipo de ilusão, um lunatismo, mas é demência similar à de qualquer pessoa dada a livros, e o nome dessa doença é quixotismo. (…) Aprendi em outras escolas muito mais duras, muito mais duras, que a alegria só vem bem depois, o que vem em primeiro lugar mesmo é o um caminho sofrido (…)

Caminho longo. Eu, um neném recém-nascido.

*

2. Em agosto faz dois anos que meu livro “Notas mínimas” foi lançado pela Solisluna Editora. Ainda lembro: 13 de agosto, São Paulo, friozinho bom, café quente e pão de queijo. A fila para o Padre Marcelo Rossi fazia minhocas pelo pavilhão – a Bienal do Livro fervia. Autografei alguns exemplares, a maioria para conhecidos, inclusive um tio que passava casualmente por ali (vida louca vida: esse tipo magro e distante, dono de uma empresa de livros didáticos, foi o primeiro editor a recusar meus textos; aos dez anos de idade enviei para ele o manuscrito de um livro de poesias, que permanece inédito… então imaginem a surpresa dele – e a minha – ao nos encontrarmos, eu de livro na mão, ele a fazer negócios…). Fora meu tio e os amigos, uma dúzia de transeuntes desconhecidos também notou minha figura – que não estava triste não, ao contrário: minha figura de 1,48m de altura exultava mais do que Dom Quixote. Os três atores da foto acima trabalhavam em algum stand próximo. Foram passear, descontrair, e resolveram me pedir para declamar meus contos para eles.  Surreal, não?

*

3. Um pouco de alegria, que viver é bom: na sexta passada, saiu o resultado do edital Setorial da Literatura da Funceb/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Bacana, meu projeto foi aprovado pela comissão técnica, composta, entre outros, pelo contista pernambucano Marcelino Freire e pela poeta gaúcha Angélica Freitas 

Isso quer dizer que no ano que vem darei uma oficina de contos no Cine Teatro de Lauro de Freitas. Será gratuita, seis aulas por turma, duas turmas. Mais informações em breve! Me segura, Waly, me segura!