venta: é hora do chá

“The wind agrees with me
not the sun”  –
Washlines
– Jack Kerouac, Haicais

CHOVE há dias. O vento úmido mofaria as cortinas, não fosse o vidro entre nós e o mundo. As cortinas, o mundo, eu, todo desejo único de ninguém. Nada, não. Muita gente, roupa pra lavar e até um gato. Pingos e sílabas brotam do ar, renascem da silente estiagem falsa – os pingos ficando cada vez mais delgados, dedilhando o violão comigo, o teclado, o fogão, a pele do amor e do sal. Talvez um pouco de coragem: e então pedalar por entre as flores, por sobre o Planeta Lama. Alguns livros, entre eles “Haicais”, de Kerouac, me movem até outros textos – pois sim – e me vejo entre-trechos – outros experimentos, atendimentos e ocupações universais – mas primeiro me alcança, me dança, o vento saindo da palavra e vindo aqui dentro, eu sabendo que ainda não me curei, nem do ‘mal de Whitman’, nem do mal de ‘Bob Dylan’,  nem do ‘mal de Altair Martins”, esses gerúndios caindo bem ainda aos ouvidos, meses e meses depois de vividos, e te digo, no eco: os haicais e as palavras certeiras também me acertam e ressoam, provenientes da parte do meu corpo que sofre o ‘mal de Kerouac’ e do ‘mal de Leminski’. Meio a meio, ou não, cada poro do meu corpo tendo um mal; minha boca, por exemplo, sofre do ‘mal de Gertrude’ mais do que devia, e a ponta dos dedos, digitadoras compulsivas, insistem no ‘mal de Joyce”, mil faces de dédalus dentro dos versos, frases coisas assim comichões, vontade de um ‘mal de Roussel’ mas não consigo por muito tempo, acostumando-me de novo à realidade depois de tanto vento, estou mais para ‘mal de Carola’, num inventário das minhas ausências, mais para ‘mal de Bishop’, agora, sempre em dúvida, ir ou ficar, perder ou guardar, e louca porque me nunca me acaba a febre do ‘mal de Dorothy’… No fim de cada dia, percebo insistir no ‘mal de mim mesma’ a maior parte do tempo. Venta: é hora do chá.

(-k.f., 04/10/2015)

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“E moro em um submarino”, acrescentei

na foto de Daniel Starling, momento da leitura de trechos de
na foto de Daniel Starling, momento da leitura de trechos de “Viagens de Walter” em performance do grupo de contação de histórias da Barca dos Livros.

Daniela ligou e dessa vez atendi. Queria saber o que eu achava de Floripa. Perguntou o que me atraía.

“A nuvens e as cores do céu”, foi o que eu disse. “E as ruas de peças de cimento do Morro das Pedras, que me hipnotizam pela repetição do padrão geométrico de seis lados e me levam para outra dimensão.”

Deve ter me achado louco. Todo lugar tem céu colorido, nuvens e ruas hipnóticas a seu modo.

“E moro em um submarino”, acrescentei, para piorar a situação. “Um submarino com laranjeiras e um observatório no telhado, de onde vejo o mar”.

“ALUCINANTE”, ela respondeu, quase gritando. Parecia estar com raiva.

Perguntei por que continuava me procurando. Ela respondeu com um grande silêncio e depois disse que precisava desligar.

Acho que foi a última vez que nos falamos.
* * *

Descobri hoje de manhã que esta casa tem oitocentas e setenta e uma goteiras – e apenas dois baldes. Se fosse mesmo um submarino, já teria naufragado.
capa
— trechos de Viagens de Walter, primeiro e-book da Solisluna Editora e produto final do projeto Viagens na Barca, atividade da Bolsa Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura, da Funarte (2012/2013), realizada na Biblioteca Barca dos Livros), em Florianópolis, SC. Baixe o livro grátis em formato .epub ou .mobi no seu e-reader, via loja da Apple, Google Play ou direto no site da editora

um cisco de 5 faces

Capa_CiscoEsta é a capa do e-book Cisco (e-galáxia, 2015), que traz contos produzidos tem terras catarinenses por Gregory Haertel, Katherine Funke [yo], Melanie Peter, Paulino Júnior e Priscila Lopes. Cisco poderá ser baixado gratuitamente a partir de 19 de maio, por ocasião do 5o. Festival Nacional do Conto. O evento, com curadoria de Carlos Henrique Schroeder, vai ser realizado em Florianópolis (SC), no Sesc Prainha, de 19 a 24 de maio. Na última noite, nós – as cinco faces de “Cisco” – leremos nossas histórias ao vivo por lá. 11169679_846218062113641_867915107917283802_o   E a programação é muito mais que isso. Tem homenagem ao baiano Hélio Pólvora, presença fortíssima do gaúcho Altair Martins na mediação e na oficina literária, e uma porção de nomes bacanas passando pelas mesas de conversa. Quem não puder estar pessoalmente vai poder conferir em vídeo e ao vivo.

UMA SEMANA PARA O CONTO! Confira a programação completa: http://www.festivalnacionaldoconto.com.br/

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P.S. (em julho/2015): todas as mesas do Festival foram filmadas e estão disponíveis no youtube: aqui o link direto para o canal.

more than tweeting Geisler. she deserves it

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[ na imagem, Patrícia Galelli, em ilustração para o marca-páginas de Cabeça de José ]

Luisa Geisler’s ideias about (woman) writing , babe, that’s we are talking about today: her excellent article
“Eu escrevo como mulher, sim”.
http://oglobo.globo.com/cultura/livros/luisa-geisler-eu-escrevo-como-mulher-sim-14626000

A ideia da hashtag #leiamulheres2014, de Luisa Geisler, me faz pensar: que mulheres tenho lido, ou admiro, ou quero ler ainda?

Então lá vai uma lista imediata – nomes citados de memória, na ordem em que surgirem – por categoria (ca-ra-ca!!, vou passar horas fazendo isso, já sei – são 12:55 agora, vamos ver que horas termina):

1) tenho lido
————–
Carol Bensimon – Todos nós adorávamos caubóis foi o melhor romance brasileiro que li este ano. Curiosamente, Também curto demais os artigos para o blog da Cia das Letras.
Luisa Geisler – acabo de ler este artigo dela, e sempre estou atenta.
Noemi Jaffe – comprei o e-book Comum de Dois e me diverti à beça. A verdadeira história do alfabeto é meu livro de cabeceira.
Angélica Freitas – ela é incrível e presenteou a humanidade com a força de Um útero é do tamanho de um punho.
Patrícia Galelli – Cabeça de José é incrível, entrevistei-a sobre o livro para a publicação independente Ultralits. agora estou lendo Gávea, conjunto de pequenos contos lançado pelo selo Formas Breves.
Ana Cristina César – claro. Estou no momento com Crítica e tradução. Procuro urgentemente um bom exemplar de A teus pés.

2) já li e admiro
——————
Anaïs Nin – com ela fico pensando que um dia chego lá. (rs)
Alice Munro – que contista da porra! Tenho quase todos os livros traduzidos e publicados em português. Meu desafio é ler no original.
Kátia Borges – poeta que foi colega de trabalho de alto nível.
Cíntia Moscovich – Essa coisa brilhante que é a chuva tem uma beleza secreta e ao mesmo tempo uma linguagem super simples e acessível. Gosto dessa ambiguidade que a autora deixa como marca.
Márcia Denser – seus contos com uma certa veia sexual and junkie têm ritmo perfeito, alucinado e cadenciado, um certo blues.
Celina Portocarrero – as poesias me tocam, ela é demais. Seu trabalho como tradutora, também, perfeito.
Hilda Hilst – porra.
Mariana Paiva – baiana que ainda vai nos encher de Bahia.
Karina Rabinovitz – sinto-me feliz de viver na mesma época que essa poeta incrível, também da Bahia.
Anna Akmáthova – poeta russa que fala por mim, às vezes. Se não a conhecem, leiam já. Aqui.
Katherine Mansfield – além de ser minha xará, tem uma escrita muito inteligente. Adoro os finais ambíguos, as cenas construídas como só ela sabia fazer.
[ai meu deus, são tantas…! vou pular para a próxima lista, senão não termino…]

3) quero ler
————
Isak Dinensen – na verdade, conheço muito pouco dessa escritora dinamarquesa – o pouco citado e referenciado por Raymond Carver. Pois é.
Érika Mattos da Veiga, Natércia Pontes – são minhas colegas na antologia Desordem e já tem outros livros publicados. Da Natércia, descobri uma veia bacana para tradução em seu site oficial.
Állex Leila – ainda não li, mas quero muito ler. tenho aqui um romance autografado por ela, está nos meus planos de verão.
Margareth Atwood – li a biografia antes de ler os livros dela. Acreditem. Loucura minha.

O.K. Vou publicar este post incompleto. Há muitas mulheres a serem lidas.

Estou com Geisler:
“Sugiro ler mulheres, e só.”

* * *

para fins de registro correto, listo aqui alguns adendos de dia seguinte:

1) lendo
——–
Virgínia Woolf – a coleção de contos lançada pela CosacNaify não sai do lado do sofá da sala. Volto a ela pelo menos uma vez por mês.
Marguerite Yourcenar – na verdade, estou lendo a biografia dela, depois ter lido alguns contos.
Paloma Vidal – estou  acompanhando o blog dela e a Sala Grumo .
Mariana Ianelli – grande poeta, que também sabe ser boa cronista da publicação Rubem.

2) já li e admiro
—————–
Gertrude Stein – no verão passado, comparei duas traduções brasileiras de Três Vidas e aprendi um bocado sobre o ritmo de Gertrude. Agora quero procurar o que Luci Collin tem traduzido, ainda não vi.
Clarice Lispector – claro! Mas não tudo, e não o tempo todo.
Adriana Lisboa – indico Rakhushisha aos espíritos sensíveis e amantes da obra de Bashô!
Carola Saavedra – quanto mais leio, mais gosto. Preciso ler O Inventário das Coisas Ausentes – seu romance mais recente.
Verônica Stigger – gosto das estranhezas de Stigger e do modo como ela apresenta as histórias. Adorei Delírio de Damasco, editado em Santa Catarina.
Lygia Fagundes Telles – ela tem cada história! musa.
Simone de Beauvoir – ainda adolescente, houve um tempo em que quis devorá-la, quero dizer, suas obras completas. Preciso retomá-la, ler adulta com certeza é diferente.

3) quero ler
————–
…e agora vou ter de deixar por incompleto de vez.
ó listas, vício interminável!

Notas do subsolo iluminado

Oficina de contos, turma de hoje, em foto minha
Oficina de contos, turma de hoje, em foto minha

E então a gente fica feliz em compartilhar nossos prazeres e fome de conhecimento e angústias e as certezas e as palavras e as vontades e as fugas e as notas de subsolo, porque todos têm algumas, eu tenho, eles têm, eles – meus alunos; eu que ainda não sei de nada já tenho alunos; acho que o mundo está perdido e eu estou feliz. Acho que já disse isso: que fiquei feliz e que preciso ir.

*

De quarta a domingo trabalho na Flica, em Cachoeira, como parte da equipe de produção, na recepção aos autores. Será meu primeiro ano no evento e também na equipe de produção. Finalmente terei em mãos o livro de água, de Karina Rabinovitz. Uma das minhas metas é ir ao Pouso da Palavra. Outra é ver Joca Reiners Terron no sábado de tarde. Quase tudo vai ser transmitido pela internet: http://www.flica.com.br/

notícias do meio do caminho

capa-viagens de walter

Agora que todo mundo pode ler meu recém-parido romance “Viagens de Walter” (há exatos cinco dias disponível para download grátis no site da Solisluna Editora), despeço-me pouco a pouco da “Santa e Bela” Catarina para voltar à Bahia daqui a outros exatos cinco dias…

Do meio do caminho, paro tudo nesta noite fria para deixar neste blog o registro de uma saudade do que fica, ao mesmo tempo de uma ansiedade pelo que vem. É quase uma maresia o que sinto: as águas ainda se movimentam embaixo dos meus pés e estes mesmos pés já estão em terra firme, na estrada de novo…

registro do projeto Viagens na Barca - maio/2013 - foto: Daniel Starling
registro do projeto Viagens na Barca – maio/2013 – foto: Daniel Starling

O tempo passou muito rápido – rá, que obviedade para se dizer, eu sei. Mas esses seis meses de longas noites de insônia produtiva me amadureceram um bocado como escritora, como cidadã e mesmo como andarilha: transportei quase toda a minha vida da Bahia para cá e agora tenho de arrumar tudo de novo para retornar.

Levo desse semestre muitas lembranças boas, especialmente da convivência com a comunidade da Biblioteca Barca dos Livros, em Florianópolis. Agradeço pela oportunidade proporcionada pela Bolsa Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura, da Funarte, e a todos os que conheceram e acompanharam o projeto Viagens na Barca.

Falei de como valeu a pena ter “levantado âncora” para o jornalista Rubens Herbst, neste post do blog Orelhada do jornal A Notícia, no mês passado, e também para o escritor Davi Boaventura, nesta entrevista publicada no blog de literatura do iBahia.

grupo do primeiro sarau do Viagens na Barca, em Florianópolis / foto: Marina Moros
grupo do primeiro sarau do Viagens na Barca, em Florianópolis / foto: Marina Moros

Agora me vou. Preciso terminar o relatório final para a Funarte. Há dias sei disso e não consigo me concentrar, quase por não querer que o projeto tenha fim. Mas é assim… devo pensar como aconselhou-me a coordenadora geral da Barca, Tânia Piacentini: que venham muitas e muitas “viagens” ainda, muitas outras viagens na Barca dos Livros para mim e para todos os que puderem conhecer esta movimentada, inspiradora e lúdica biblioteca.

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cartaz da oficina de contos
Fechado o relatório da Funarte, também tenho de selecionar, entre mais de cem inscritos, os vinte participantes da Oficina de Contos que vou ministrar em Lauro de Freitas de outubro a dezembro.

Selecionar pessoas talentosas e cheias de vontade de aprender não é tarefa fácil. Estou acompanhando os formulários de inscrição e a maior parte dos interessados apresentam verdadeira força para o conto. Posso sentir em suas palavras, em seus blogs, em seus modos de tentar chamar a atenção para como podem dominar a palavra e transmitir múltiplos sentidos em poucas linhas.

Espero ser justa na escolha e não desmotivar ninguém por essa impossibilidade de atender a todos. Há muitos talentos bastante lúcidos e inteligentes. O resultado da seleção sai na semana que vem.

kf-em floripa-2013

Pronto. Terminei o café e também este post. Para finalizar, mais uma vez quero agradecer a todos os que entraram na minha vida nos últimos meses aqui em Santa Catarina, assim como àqueles que sempre têm me apoiado… fiz uma super lista no final do romance, então não vou repetir aqui. Mas a cada um de vocês – família, amigos, editora – um abraço maior, bem maior do que eu.

Deixo registrado também o link desta matéria publicada no jornal Notícias do Dia, de Florianópolis, na véspera de lançamento de “Viagens de Walter“.

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p.s.: ainda falta publicar as fotos do evento de lançamento de “Viagens de Walter”. Foi realmente uma noite muito linda, com a presença de mais ou menos 50 pessoas que vieram conhecer o livro e ouvir os músicos Rodrigo Olsen Lubi, de Curitiba (PR), e seu repertório instrumental caprichado ao violão; e Tiago Aziz, de Salvador (BA), agora novo habitante do Ribeirão da Ilha, em Floripa, com seu projeto Tiago Aziz & Seres Celestiais Basslines. Rolou até uma interação estética Bahia/Paraná, com um duo dub e a inserção de didgeridoo, por Aziz, em uma peça interpretada por Lubi…ainda não deu tempo de organizar as fotos. Mas já-já, aqui no blog, com certeza! Aos dois, meu muito muito obrigada – a noite não seria tão linda sem vocês.

Viagens de Walter em Florianópolis

capa facebook

É sábado, dia 21/09,o lançamento de “Viagens de Walter” em Florianópolis (SC). Enquanto não escrevo mais, deixo aqui o registro desta entrevista para Rubens Herbst.

Saiba mais no blog do projeto Viagens na Barca (Bolsa Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura, da Funarte), ou no site do evento no Facebook.