colecione os sussurros de karina rabinovitz

detalhe d'"O LIVRO de água"
detalhe d'”O LIVRO de água”

Alguma poesia brasileira sempre está na minha mão: leio, leio, leio. Trouxe para Florianópolis: Kátia Borges (da Bahia), Waly Salomão (sempre ele!!), Alcides Buss (que é daqui) e Angélica Freitas (do Rio Grande do Sul).

Trouxe também Karina Rabinovitz.

Karina está entre as autoras das quais preciso ler toda semana, como uma volta ao sentido de escrever: sorrir.

Sua “[coleção de] sussuros” passeia pelas minhas estantes e minhas cabeças.

Eita, eu disse cabeças. viram?, ela inspira…

Gosto imensamente da “poesia pra caixinha [de fósforo]” – idéia incendiária e simples, artesanal e sofisticada em seus cuidados detalhados com a palavra e o papel.

E adoro o “livro quase invisível” (P55 Editora). Amo-os, na verdade.

E agora que estou em florianópolis ando no desejo de obter a novidade da produção de karina, “O LIVRO de água“.

“O LIVRO de água” me parece tão belo…

Rendeu, na parceria dela com Silvana Rezende, exposição e performance e videoarte e tudo mais, o que faz esse ato poético ser GRANDE como também é grande esta poeta da Bahia.

Anúncios

sutilezas em vermelho-perigo / entrevista de investigação #5: joão lin

O entrevistado de hoje não é apenas escritor.

O pernambucano João Lin é poeta, ilustrador, quadrinista, cartunista, designer, educador, editor da revista Ragu. Também faz videoarte, intervenção urbana, fotografa. Sintetiza um mundo em uma página, um traço, um haikai. Seus olhos são pequeninos, mas a visão vai longe. Tem algo de mestre zen-budista, outro tanto de agitador político. Perigoso, o moço? Não tanto quanto gostaria. É o que ele mesmo diz…

Como editor e ilustrador, Lin acaba de lançar, com o também múltiplo Christiano Mascaro, a segunda caixa do projeto Ragu Cordel: são doze libretos de literatura de cordel. Mas não aquele cordel de sempre. O projeto tem bastante de subversivo, especialmente para os puristas das linguagens tradicionais. Ele transcende o cordel; conta histórias sem palavras, ou com poesias sem rima, ou muita ação em quadrinhos.

Por aí já se vê como Lin traz perigo à nossa sociedade…

Ragu Cordel torna o cordel uma narrativa contemporânea, onde não existem tantas fronteiras entre gêneros e todos podem ser mesclados com a meta de contar uma boa história. O que se mantém é o aspecto fantástico, aventuroso e às vezes místico dos causos. Futebol no Inferno (José Soares, por Flavão) e O cordelista, o conto e o pistoleiro (Samuca) hão agradar mesmo os mais antigos dos cantadores.

Outros, talvez, causem mais estranheza.

Na caixinha de finalização caprichada, por exemplo, dá para ler sem travar a língua em sextilhas ou septilhas. Basta deslizar atentamente o olho pela história criada e desenhada por Mascaro (A Morte do Violeiro): nem uma palavra, umazinha sequer. Pra quê?

Se o cabra insistir que cordel tem de rimar, tudo bem, que rime. Mas, em vez da típica métrica do gênero, toma-se emprestado do século 21 toda a liberdade nos versos, acompanhados de estilosas “quase-xilogravuras”, como fizeram Siba e João Lin em Vale do Jucá:

Mais bacana ainda é que o projeto da Ragu Cordel é um braço da revista Ragu, que já tem oito números lançados (desde a edição zero) em seus doze anos de existência. Editada por Lin e Mascaro, a revista Ragu publica narrativas visuais de diferentes autores, com traços variados e máxima liberdade de expressão. O número mais recente saiu em 2009, em formato livro, com 33 colaboradores, entre brasileiros e convidados estrangeiros, especialmente latino-americanos. O próximo volume, de número oito, ainda não tem data para sair.

Ao ler as histórias de Lin na Ragu, sempre me pergunto: como não ficar intrigada com um trabalho excelente do ponto de vista gráfico, e ao mesmo tempo do poder narrativo?

O fato é que Lin sabe abusar das suas múltiplas habilidades. Na linguagem visual, usa muito vermelho e preto, muito alto constraste, mas também tons pastéis muito sutis e traços finos de nanquim. Abusa do geométrico e do cubismo, paralelamente a quadros soltos nas HQs, sem a formalidade habitual.

Com as palavras, o moço oferece perigo equivalente, ou ainda maior. Cria haikais, outros versos e prosas de grande densidade poética. Até despidas de seus jogos visuais, as histórias que ele cria são sui generis.

Veja o exemplo desta fábula non-sense e existencialista, publicada na Ragu número 3 (2001):

 O consertador de coisas miúdas

Relógios, isqueiros, canetas, chaveiros, caixas de música, rádios portáteis, calculadoras, carrinhos de brinquedo… Quanto menor fosse o objeto, maior sua habilidade para consertar, não importava o tipo nem a origem.

A sua casa era mínima, assim como os objetos que gostava de consertar. Não sabia o motivo do seu prazer em mexer com pequenos mecanismos.

Ver funcionando essas coisinhas o deixava feliz.

Algumas vezes não conseguia resolver os problemas de um objeto, mas na esperança de surgir alguma solução com o passar do tempo, guardava-os nos compartimentos de coisas ainda sem conserto.

Acreditava ser impossível não ter conserto para algo que um dia já funcionou. Por isso não desistia, olhava diariamente para os mais de cem compartimentos de coisas ainda sem conserto. Não tinha pressa, não procurava desesperadamente uma solução.

Para ele, não procurar era o melhor caminho, como uma mágica involuntária, uma iluminação, uma revelação inevitável. Era só uma questão de tempo. Estava envelhecendo, mas isso só aumentava sua habilidade com os pequenos mecanismos.

(…)

Não sabia de onde vinham as tais coisas miúdas. Isso não o preocupava, mas era tomado por uma enorme angústia quando pensava que um dia morreria sem que tivesse o tempo necessário para solucionar centenas de pequenos problemas guardados dentro daqueles compartimentos de coisas ainda sem conserto.”

Captou? Quer mais?

Mesmo que você não conheça nenhuma das edições da revista Ragu, se prestar bem atenção, notará que o trabalho de Lin está por toda parte: em revistas (Bravo!, Tam), jornalões e livros.

Nas livrarias, Lin pode ser encontrado em Domínio Público, projeto em dois volumes do selo Ragu Livro, onde desenhou, por exemplo, um conto de Olavo Bilac sobre o jogo-do-bicho, adaptado para os quadrinhos; está em Ovo, metáfora da trajetória da criação do mundo, publicado pela Livrinho de Papel Finíssimo Editora; está na síntese visual dos “Vestígios” do Rio Guaíba, lançada na Feira do Livro de Porto Alegre de 2011, resultado de um trabalho que misturou videoarte, intervenção e quadrinhos…

E ilustra ou cria capas para livros de outros autores, especialmente de histórias infantis, como Tatiana Belinsky (nas recentes traduções de contos de Krylov, em dois volumes), Luiz Bras e Tereza Yamashita (em A menina vermelha), Flavia Savary, Miguel Sanches Neto (em De pai para filho), entre outros.

Com essa experiência, certamente João Lin tem muito para contar. Então, bóra lá…

*

Katherine Funke – Você tem um trabalho bem autoral: cria histórias, escreve-as em prosa ou poesia, e as desenha com uma grande liberdade formal, sem se prender a escolas específicas. O que vemos parece ser resultado de um processo de erros e acertos, de pesquisa e aprimoramento, de muitos anos. Conte um pouco de sua trajetória, de suas influências, seus mestres, para a gente entender de onde vem tanto domínio sobre essas diferentes formas narrativas…
João Lin – Gosto da expressão “mestre”, ela anda meio em desuso, mas respeito o seu significado. Tive sempre sorte, encontrei muitas pessoas que me revelaram coisas importantes sobre arte, criação, sobre mim e sobre o meu desenho. Tive muitos amigos artistas que foram generosos comigo. Aprendi bastante com mestre Ral que botava a maior fé no meu trabalho, mesmo quando eu acreditava pouco. Ele enxergava coisas que eu não conseguia ver, a exemplo da força da síntese no desenho. Lúcio Mustafá foi outro desenhista e amigo que me instigou e inspirou, juntamente com Roberto da Silva, que era um cara instigadíssimo e estava sempre ligado em 380 volts. Aprendi com minha mãe que foi bordadeira, costureira e sabia colorir com uma certa estranheza e harmonia incomuns, acho que herdei isso dela. (Meu pai era dono de farmácia, assim como meu avô). Outro amigo que me deu várias dicas valiosas foi Mascaro, uma parceria que já tem mais de uma década. Com outros… aprendi vendo/lendo o seu trabalho, como: Zimbres, Millôr, Steinberg, Paul Klee, Sempé, Guazzelli, Mário Valle e por aí vai. Sempre fui eclético e sempre tive dificuldade em me manter num só caminho, sou muito influenciável. Tenho interesses bem diversos e não me incomoda a mácula, a interferência de outros discursos no meu trabalho. Não quer dizer que eu seja assim noutras dimensões da vida [risos], infelizmente. Uma coisa que sempre me instigou foi a ação política (sou de aquário). Comecei a militar nas pastorais católicas, depois no movimento estudantil, no partido e nos movimentos sociais. Comecei desenhando para sindicatos, para o PT, para os movimentos populares… E por ironia do destino também já desenhei para o exército, fiz álbuns seriados, instruções de armas, e coisas assim… Hoje meu trabalho é cada vez mais diversificado, ilustro para literatura para crianças e jovens, mas faço peças mais jornalísticas e tenho desenhado muito para encartes de músicos e bandas. Este é um trabalho que me instiga demais e onde me sinto à vontade para experimentar e trocar figurinhas com o pessoal de música.

KF – Além de autor, você também desenha, edita e faz design para histórias criadas por outros escritores. Qual o maior prazer e a maior dificuldade que você já teve, nessas duas experiências distintas?
JL – Não vejo tanta diferença entre fazer uma HQ que eu criei desde o argumento até o desenho, e uma ilustração a partir de um texto de outro autor. Não do ponto de vista criativo. Considero que ambos me dão as mesmas possibilidades de criação. Alguns limites existirão nos dois casos, como por exemplo: formato do livro, quantidade de cores, quantidade de páginas. Estas coisas não dependem apenas da criação, mas de circunstâncias de produção, portanto não são questões essencialmente criativas. Claro, existem trabalhos que motivam mais, porque o tema te interessa, porque você se sente mais à vontade com ele etc. Essas características não dependem de ser uma encomenda ou de uma decisão, necessariamente, do autor. No caso da encomenda, você tem menos possibilidade de decidir tema/conteúdo, mas também pode optar entre fazer e não fazer tal trabalho, caso ele não te motive ou você não tenha afinidade com o tema. O que eu quero dizer é que todos os trabalhos que eu faço busco me colocar como autor, fazer também o meu discurso. Como artista, o tipo de recurso gráfico, a escolha da elementos simbólicos que uso na ilustração ou HQ já são a minha opinião, já levam o meu olhar de autor. Isso me parece inevitável. Talvez a maior diferença entre estes dois tipos de trabalho é que no trabalho não encomendado você se pauta e você é seu próprio editor. Isso não é necessariamente vantajoso, pois muitas vezes a troca com o editor traz boas reflexões, obriga a dialogar com outras referências, te coloca em movimento. Acho que esse é um exercício importante para qualquer artista. Gosto de discutir com o editor sobre as questões estéticas, políticas, simbólicas do texto. O que não topo é trabalhar com editores que não estejam abertos ao diálogo. Felizmente, tive poucas experiências desse tipo.

KF – Em algumas de suas histórias, o protagonista é alguém com uma tarefa interminável e extremamente lenta e detalhada, como o consertador de coisas miúdas, o pintor que inscrevia as histórias dos habitantes da cidade de Perdão em um muro e o torneiro mecânico que decidiu reativar um engenho velho. Você se sente assim também – um autor com uma tarefa interminável, determinado a cumpri-la, mesmo que não leve a lugar algum? Neste caso, qual é a sua tarefa?
JL – Acho que determinação não é a melhor palavra para dizer da minha instigação para a arte. Talvez, compromisso político, compromisso de classe, já que não se pode mais falar de ódio de classe, e já que também não dá mais pra falar de marxismo. Tenho consciência das minhas intenções no meu fazer artístico, não sou ingênuo e gostaria até de ser mais “perigoso” como diz o amigo e capoeirista Joab. Meus desenhos não parecem ter esse conteúdo político explícito, mas acredito que sutis subversões são o meu jeito de ser político. Subverter, por exemplo, a supervalorização do virtuosismo na arte, que qualifica e hierarquiza, é uma maneira de discutir a elitização no fazer artístico. Numa sociedade que supervaloriza o rigor técnico como valor estético máximo, mesmo sabendo que isso privilegia as classes dominantes, as elites intelectuais e a classe média, porque é esta elite que pode “perder” seu tempo numa escola exercitando exaustivamente a técnica. Por isso, faço uso do meu desconhecimento e minha “limitação técnica” (pois não sou virtuoso) para contestar esta visão elitista de arte. O caminho da síntese, da simplicidade, da economia de recursos gráficos hoje passou a ser uma escolha pra mim, principalmente por entender a função e força política dessa escolha. O mesmo se dá com o excesso de recursos digitais e toda parafernália high-tech. Quando faço uma arte da sutileza, do silêncio, da delicadeza, pretendo contestar esta visão “espetaculosa” e pirotécnica de arte. Paralela a essa dimensão política, existe mesmo uma tarefa interminável, que é a da busca do auto-conhecimento, usando a metáfora do desgaste próprio das coisas na vivência; do constante refazer e da certeza dos desgastes futuros. Percebo que a necessidade recorrente de consertar, fazer a manutenção, cria uma confiança e esperança de que esse este fazer se torne tão orgânico que chegue a te dar prazer, o prazer de se perceber aprendendo e aceitando esta condição.

KF – O que não pode faltar na rotina e no ambiente de trabalho de João Lin?
JL – Travo uma luta diária com a organização no meu atelier e ainda nem empatei o jogo. Então, posso dizer que não pode faltar organização; não pode faltar um cheirinho de alfazema; não pode faltar muita luz, pois sou meio cego; não pode faltar música; não pode faltar internet; não pode faltar papel de vários tipos; e não pode faltar instigação para o trabalho e ideias pra gastar.

KF – Você e Christiano Mascaro são editores da revista Ragu, que reúne diferentes traços autorais. A revista começou pequena, um fanzine em Recife, e no sétimo número, em 2009, surgiu como um livro volumoso, com 33 colaboradores. Quantos exemplares de toda a história da revista, no total, estão circulando por aí? Como está a continuidade do projeto?
JL – A Ragu, editora independente, publicou oito edições da revista Ragu, duas edições da Domínio Público – Literatura em Quadrinhos (selo “Ragu Livro”), duas caixas “Ragu Cordel” (a primeira com 6 livretos e a segunda com 12 livretos) e a coleção “Olho de bolso” com 12 livretos (selo “Raguzine”) em parceria com a editora Livrinho de Papel Finíssimo. Circulam mais ou menos vinte mil exemplares, somando todas as tiragens, sem incluir a “Domínio público volume 1”, que foi aprovada no edital público do Ministério da Educação/PNBE, com uma tiragem de vinte mil exemplares para bibliotecas escolares. É importante falar de números, mas uma coisa que nos instiga na Ragu é que ela é um espaço de experimentação da linguagem, e nos permitir elaborar e disseminar a nossa concepção de quadrinhos. Nosso exercício na edição é o de compor com o conjunto de hqs e autores uma reflexão sobre a produção de quadrinhos independente. Claro que isso não é privilégio nosso, nós colaboramos, com nossa visão, para uma rede de publicações independentes de quadrinhos que também está publicando com essa mesma perspectiva. Incluir autores da Bolívia, Peru, Argentina, Cuba e Espanha deixa claro essa intenção de dar nossa colaboração nesse novo cenário dos quadrinhos no Brasil e especialmente na América do Sul, que tem uma produção independente muito rica e pulsante. Continuaremos publicando através da editora Ragu, mas nesse momento estamos mesmo refletindo sobre novos produtos. Queremos investir em novos formatos, não esquecendo das experiências que deram certo. Hoje, estamos pensando mais em desenvolver a sustentabilidade da Ragu. Este não foi nosso foco nesses onze anos, por isso as nossa publicações necessitaram na maioria das vezes de recursos públicos ou parcerias com outras editoras. Ainda não sabemos quando faremos a Ragu 8.

KF – O projeto Ragu Cordel usa um conceito bem ampliado de cordel. De onde veio essa ideia?
JL – O que nos interessa na Ragu Cordel é poder explorar o rico e amplo universo da poesia popular nordestina, e como o cordel é talvez a expressão mais popular dentre as outras facetas da nossa poesia, decidimos que a expressão “cordel” seria o grande guarda-chuva para apresentarmos a diversidade e riqueza desse universo. Não nos limitamos estritamente a forma (versificação, ritmo, categorias…) do cordel, mas fizemos o exercício de flexibilizar esses limites para criar diálogos com o universo dos quadrinhos e sua gramática particular. No final, gostamos do samba que deu.

KF – Indica aí: cinco livros entre os favoritos da estante de João Lin.
JL – Difícil escolher apenas cinco… mas vamos lá: O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell; A delicadeza, de Denilson Lopes; Epiléptico, de David B; Formas de Pensar o Desenho, de Edith Derdick; Haikais de Bashô – tradução de Olga Savary; Pequeno Dicionário de Percevejos, de Nelson de Oliveira; Contos fantásticos, de Guy de Maupassant; e Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman.

delírios de um autor inventado / [entrevista de investigação #2: luiz bras]

A carta roubada pode estar em cima da escrivaninha, já avisava Edgar Allan Poe. Óbvio, visível, direto. Acredito que vale para tudo. O que está na cara pode se revelar o elemento mais difícil de se ver. A investigação de um livro, portanto, deve partir da capa.

Ahã, pois aí está a de “Paraíso Líquido, Luiz Bras” (Terracota, 2010), o mote dessa segunda entrevista de investigação, parte da série iniciada semana passada neste blog.

O título desse jeito, em um itálico invertido, as letras deitadas para a esquerda, rebeldes, à frente de uma ilustração de dar nó em cabeça de psicanalista…? Sensação de deja-vú. A capa se parece com a de Muitas Peles (Terracota, 2011), coletânea de ensaios onde Luiz Bras anuncia sua paixão pela ficção científica.

Mas Luiz Bras é só um nome desenhado na capa de um livro de dar nó em cabeça de psicanalista, ou alguém de carne e osso? Decido investigar mais. Afinal, assim como acontece em contos como “Iniciação”, de Caio Fernando Abreu – que tem bons toques de ficção científica –, as treze narrativas de Paraíso Líquido nos fazem desconfiar da existência factual de tudo: do lugar onde estamos, da nossa pele, da identidade do autor…

E eis que de repente a gente descobre que é um fato: esse tal de Luiz Bras é mesmo um autor inventado.

Opa! Muita gente já sabe, mas para mim foi uma novidade quando descobri, no meio do ano passado. Até então, eu achava que Bras era uma “pessoa de verdade”, um colaborador bacana do Jornal Rascunho, que havia compartilhado em sua coluna os pormenores da fabricação de seu romance Sozinho no Deserto Extremo (que vai sair logo – pela editora Prumo, o braço paulistano da Rocco).

Sabia também da sua faceta ensaísta e do talento para produzir livros infantis e juvenis. Desde 2004, ele lançou cinco obras do gênero infanto-juvenil individualmente, e mais outras quinze como co-autor (quatorze delas em parceira com Tereza Yamashita). Os Sons de Salvador (Callis, 2007), por exemplo, eu já tinha saboreado aqui na Bahia. Mas, na época, ainda achava que Bras era apenas Bras.

E só sabia que, além de ter escolhido nascer em Cobra Norato, ele colecionava zigurates. Mas tem mais: Luiz Bras é o pseudônimo, ou novo ânimo, de um outro escritor, doutor em Letras pela Usp, autor de um romance vencedor do Prêmio Casa de Las Américas 2011 (Poeira: demônios e maldições), entre vários outros prêmios. Quem inventou Bras já gostava, e muito, de ficção científica. Ah, tá explicado! Que figura, esse Nelson-Luiz-Bras-Oliveira…!

E como funciona isso de ter um heterônimo, um novo eu? Gastei dias e dias imaginando; trata-se de um passatempo saboroso. Uma vez conhecedora do Paraíso, decido acalmar meus próprios delírios aceitando o convite feito no posfácio do livro: escrever para o escritor.

Mando um email para o endereço indicado ao final do Paraíso Líquido – e ele me responde quase imediatamente. Existe, portanto? Ou é resposta automática? Seria um ciborgue? Humano, ou não, tem na sua genética algo de gentil, de atencioso. Diz que basta perguntar.

Bras manda brasa. Não perde tempo. Antecipa. Aceita o papo, mas alerta que Paraíso Líquido pode ser uma leitura imprópria para grávidas. Incrível: como sabe a meu respeito? Mandou um dos seus personagens me vigiar? Implantou nanocâmeras nas páginas do meu exemplar do Paraíso? Entrou no meu cérebro por meio das palavras e conhece meus pensamentos em tempo real? Seria ele um… pós-humano? Um ser onipresente? Nem só psicanalistas estão sujeitos ao nó na cabeça anunciado pela capa…

Respiro. Volto à Terra e retruco: não, Bras, não faz mal, ando lendo uns livros estranhos mesmo – Bolaño, Poe, Stigger, Eisner… O inventado ri do outro lado tela. E me pergunta o que vem depois: Stephen King?

Ri mais.

Ri? Eu não vi. Ouvi? Pode ter sido alucinação auditiva. Não sei. Ainda estou sob o impacto da leitura. Ainda tenho comigo uma sensação de não ter acordado de uma esfera onde o deja-vú convive com outros resquícios de memória muito apagados. Ou meu cérebro apresenta falhas no setor do hipocampo, ou esse autor inventado tem uma estratégia bem traçada para criar impacto na mente alheia…

Com vocês, nosso papo.

*

Katherine Funke – A expressão “paraíso líquido” é ótima para definir esse estado do viver mais no virtual, no imaginário impalpável, que na dita realidade concreta. Como surgiu esse conceito, para você? De alguma forma, a obra de Zygmunt Bauman a respeito da modernidade líquida influenciou o universo criado nos contos do livro?
Luiz Bras – O adjetivo “líquido” é um dos mais fascinantes. Qualquer substância em estado líquido, seja água ou ouro, move-se de maneira sinuosa, às vezes sub-reptícia. Quem não gosta de contemplar demoradamente o movimento fractal de um rio ou do oceano? Mas Zygmunt Bauman fala negativamente da liquidez da modernidade, do amor, de tudo, porque ele não enxerga com bons olhos essa situação em que tudo muda rapidamente sem jamais se solidificar. Sua visão do futuro global é bastante apocalíptica. Mesmo concordando com ele em certos pontos, a liquidez de meu livro é outra. É a liquidez hipnótica, que faz do movimento incessante uma forma de epifania estática, de paralisia extática, contemplativa.

KF – Um éden pós-humano pinga como colírio para dentro das retinas do leitor de “Paraíso líquido”, mas o livro também pode cair como um cisco no olho, um cisco bem concreto, sólido, incômodo, que faz piscar e duvidar do que é real e do que é inventado. É um paraíso, mas também é um paraíso formado por guerras, lutas interplanetárias e sobre-humanas por sobrevivência, e renascimentos em outros estados possíveis de existência. Depois de um tempo de imersão na leitura, o leitor tem de se beliscar para verificar se não é um clone dele mesmo, por exemplo. Sendo o autor Luiz Bras uma invenção, essa intenção já fazia parte do projeto literário criado junto com ele?
LB – Gostei da expressão “éden pós-humano”. Diferente do éden bíblico, o novo éden, apesar da alta tecnologia, será análogo ao mundo que conhecemos: um território do bem e do mal. Mas “Luiz Bras”, duas palavras presas no papel ou na tela, é apenas o nome literário que designa o novo escritor no qual me tornei. A maioria dos contos da coletânea fala de manipulação genética e tecnológica. De certo modo, são narrativas sobre o presente. Hoje os engenheiros e geneticistas estão pesquisando maneiras de evitar o envelhecimento. Estão cultivando em laboratório órgãos artificiais, por exemplo. Em breve a expectativa de vida de uma pessoa de classe média será de cento e cinqüenta anos. Os cientistas também estão procurando formas de preservar e potencializar o cérebro, por meio de drogas da inteligência e próteses neurológicas. O brasileiro Miguel Nicolelis e sua equipe prometem devolver os movimentos aos paraplégicos, por meio de uma interface cérebro-máquina. Tudo isso (os avanços da medicina e da tecnologia) é fascinante. Fico imaginando a série de dilemas, conflitos e efeitos colaterais que o desejo do ser humano de melhorar artificialmente o próprio ser humano irá desencadear em breve. Matéria-prima para a literatura não vai faltar no mundo pós-humano.

KF – Você gostaria que a obra fosse classificada como um livro de contos de ficção científica? Ou empunhar essa bandeira, digamos assim, pouco importa para Bras?
LB – Gosto que a obra seja classificada como um livro de contos de ficção científica. É verdade que essa classificação não teria muito importância, se a ficção científica não sofresse tanto preconceito no Brasil. As pessoas leem má ficção científica brasileira ou estrangeira e logo dizem: ficção científica não presta, é subliteratura. Porém quando elas leem má literatura policial ou infantojuvenil ou erótica ou experimental não dizem: literatura policial (ou infantojuvenil ou erótica ou experimental) não presta, é lixo. Minha militância é a favor da boa ficção científica brasileira e estrangeira. Minha bandeira é a da boa literatura, não importando o gênero.

KF – Dos treze contos, alguns deixam um gosto de continuidade possível, como “Nuvem de cães-cavalos”, em que o protagonista parte intacto para Budapeste, embora com algumas dúvidas a mais sobre si mesmo e a realidade ao seu redor. Todas as narrativas reunidas no livro já nasceram como contos, ou houve alguma incursão em outro gênero trabalhada ao ponto de virar conto? Como você lida com essas marcas de nascença das histórias?
LB – Todas as narrativas já nasceram como contos. Menos a mais pretensiosa das treze, justamente a última, “Paraíso líquido”. Antes de começar a escrever essa narrativa (minha predileta), ainda na época das anotações, dos resumos e rascunhos, eu imaginava que seria um romance curto. Mas logo que comecei a trabalhar no texto vi que a maluquice do assunto e da linguagem poderia perder a força se a narrativa se alongasse demais. Então decidi condensar toda a trama em pelo menos um terço do número de páginas. Não queria matar meus leitores de cansaço, como costuma fazer a maioria dos ficcionistas experimentais. Nas entrelinhas desse conto longo é possível ouvir, até mais do que a cacofonia da modernidade líquida de Bauman, ecos da palestra “Regras para o parque humano”, de Peter Sloterdijk. Em “Paraíso líquido” eu extrapolo poeticamente a preocupação filosófica de Sloterdijk com a bioengenharia e a reforma genética das características humanas.

KF – O que a temática futurista dos contos de “Paraíso líquido” tem a ver com o clima apocalíptico do seu próximo livro, “Sozinho no deserto extremo”? Por que você decidiu antecipar questões relativas a esse romance no jornal Rascunho?
LB – O próximo livro é um romance sobre o último homem na Terra, depois que toda a espécie humana desapareceu. É uma narrativa sobre a solidão concreta, não a solidão figurada do homem na multidão. Esse romance pertence a um ramo da ficção científica intitulado justamente “o último homem na Terra”. O artigo publicado no Rascunho [N.E.: publicado em três partes no jornal] surgiu de minhas anotações durante a escritura do livro. É uma tradição norte-americana que me agrada bastante: comentários do autor sobre a gênese de seus trabalhos. Vejo muito isso principalmente em antologias. Antes ou depois de cada conto, o autor inclui alguns saborosos parágrafos autobiográficos, discorrendo sobre as circunstâncias que deram origem ao conto. Estou planejando transformar o artigo do Rascunho no posfácio do romance.

“hoje não” circulando

quadrinhos de pedro filho para o "hoje não" de fev/2012

Nesta edição de “hoje não” (fevereiro.2012) temos uma contribuição especial de Pedro Filho Amorim (Le Rouge), músico, quadrinista, pensador e improvisador geral de partituras expontâneas. É dele a ilustração central, que adianto aqui para dar água na boca.

E tem poesia de José Juva, suposto argentino de Pernambuco, outra de Bruna Hercog, inquieta baiana, conto de Patrick Brock, super-escritor na ponte NY-BA. E ilustração de Pierre X Themotheo, premiado designer cearense-baiano, recém-lançado às tintas. Comigo ficaram um microconto, a edição, a diagramação e a distribuição.

Quem quiser um exemplar, basta me enviar o endereço – com cep e tudo.
Não: custa nada, não, seu moço.



p.s.: já passaram pelo “hoje não”: Wladimir Cazé, Ana Paula Boni, Chris Ott Mayer, Kin Guerra, Luis Daltro, Flávio Braga, Gerald Campos, Carla Bittencourt, Silvix, Carlos Henrique Schroeder, e… tô me esquecendo de alguém?

“hoje não”, segunda edição: 350 exemplares distribuídos

Teve 350 exemplares, xerocados aqui perto de casa, a segunda edição do fanzine “hoje não”, que circulou a partir da primeira semana de fevereiro aqui em Salvador.

A primeira leva foi distribuída durante a performance de Arnaldo Antunes e Walter da Silveira, ao som de microtons smetakianos (nada mais apropriado), no Pelourinho. Depois, em outros espaços de arte e principalmente nas minhas travessias de ônibus pela cidade. Entrego sem dizer nada. A capa fala por mim:

Se não quiser ler hoje
use como leque para espantar o calor
e guarde para amanhã

Na foto, um flagrante tosco da produção – o recorte-e-cole dos textos de Carla Bittencourt (BA), Carlos Henrique Schroeder (SC), Herculano Neto (BA), Flavio Braga (RJ), Luís Daltro (SP/BA), Gerald Campos (BA), Albert Einstein (hehe) e eu. Teve desenho de Silvix , outro roubado de uma HQ de Fabio Abreu (BA/SC) e fotos Kin Guerra (BA). Quem quiser um exemplar, peça. Ainda tenho alguns, e em caso de acabar, basta xerocar mais… Não, não vou publicar na internet. Em breve, notícias da próxima edição.

faustino faz as unhas

Ontem à noite, encontrei ao acaso Miguel Cordeiro (criador do personagem Faustino, que habitou os muros de Salvador de 1979 a 1985). Por coincidência, fico sabendo ali que um dos desenhos mais famosos (“Faustino faz as unhas”, vide foto) foi pintado no muro da antiga casa da minha sogra, na Rua Gal. Bráulio Guimarães, no Jardim Armação.

+ sobre a arte de Miguel Cordeiro no blog dele.

“sorrisos”, de pierre verger

Um dos trabalhos mais bacanas que tenho feito ultimamente é respirar felicidade junto com Valéria Pergentino e Enéas Guerra, da Solisluna Editora. Essa dupla é muito alto astral e publicou meu livro “notas mínimas” em 2010. Pois: a notícia é que acabam de lançar a publicação-presente “Sorrisos”, com fotos de Pierre Verger. Minha parte nisso tudo? Fiz a seleção de poesias que permeiam as imagens e o texto de abertura. E aprendi um bocado ao ler a biografia “Um Homem Livre”, os livros do próprio Verger (especialmente “50 anos de fotografia”) e, como que envolta em mágica, ouvir as “aulas” de Enéas Guerra, que com muito amor contou histórias do tempo em que conviveu com esse grande fotógrafo franco-baiano.