Se vocês me vissem, acreditariam?

capa-conto

– trecho de Compra-se sonho.  

Se vocês me vissem, acreditariam?

Desde que assumi o Coatí, nunca mais saí. Devo estar horrenda, meu hálito comprometido, uma cirrose iminente… Mas e daí? Faz seis anos agora: seis anos nos fundos do quintal do velho centro vivo da cidade, no background, buscando sentido na total irracionalidade em que me meti desde que escalei o muro de contenção como lagartixa.

Peço desculpas se meu relato não parece consistente… Meu corpo vibra, seguro o lápis com a mão trêmula… Estou feliz. Pois a cada visita, os semi-vivos se tornam menos mortos. Eu os escuto e pago na hora; pago sempre a mesma quantidade, a mesma dose para todos.

Mesmo quando interrompem o relato dos sonhos, se confundem, voltam e recomeçam, contando outra coisa, eu pago. E esta cachaça especial, com suas propriedades nutricionais, vai recolocando vida onde havia medo e desesperança.

Pelo menos, ela tem feito isso comigo.

*

Nova batida do sino… mesmo com chuva…

Desta vez é Yara… a mais jovem e mais bonita das minhas clientes.

*

 

Era um quarto vazio, nada nele, eu dentro, sem luz, só ruídos, ruídos, ruídos, eu ouvia ruídos, bzzz, bzzzz, não de abelhas, mas quase, ruídos ao meu redor; de repente a parede começou a ruir, o teto começou a ruir, me senti arruinada, e sem saber de onde vieram forças, corri o mais rápido possível para a porta, naquele momento eu entendi, era minha casa, então desci as escadas até o térreo. Só que eram milhões de degraus, e não apenas dois lances de escada, como eu esperava. Minhas pernas amoleceram, decidi procurar um elevador. Bastou pensar nele, e apareceu. Quando a porta do elevador abriu, quase pisei no abismo. Corri de novo escada abaixo e depois para a saída do condomínio, e atravessei a rua, os ruídos continuavam comigo mas não tinha ninguém do lado de fora também, o que me fez olhar para trás, a tempo de ver a grua batendo no arco da portaria do condomínio e destruindo seu nome. Adeus, Piatã… Os ruídos ficaram tão altos que comecei a gritar, gritei de dor, um dos meus tímpanos explodiu… vi os policiais… levaram-me para uma viatura, eu não ouvia nada, o sangue escorria pelo meu nariz… eles me deixaram em um apartamento decorado na Paralela… era uma grande festa, com champagne, caviar, muitos carros estacionados do lado de fora, e eu ali, de pijama, o nariz escorrendo sangue… Um homem de terno me recebeu em uma sala isolada… “Nossa cliente VIP!”, ele disse, e parecia um vampiro quando sorriu. Apertou um botão que virou o tampo da mesa, dando lugar a uma maquete de um conjunto de prédios residenciais… então perguntou se eu gostava de champagne ou preferia uísque… não respondi e, irritado, ele me pediu para escolher logo um bloco e um apartamento, pois havia muitos e muitos VIPs esperando sua atenção especial… “Cozinha gourmet e piscina olímpica”, explicava. “Mas talvez você prefira ficar mais perto do espaço zen…” Então ele acendeu uma luz na maquete, uma luz dourada, direcionada para meus olhos… que, de repente, explodiram.

*
Yara parte muito devagar, ainda em choque. A bebida vai fazer bem a ela por esta noite.

Quanto a mim, mudei-me da sala maior, onde escrevia, para a cobertura. Parou de chover, está fresco, as nuvens deram lugar às estrelas. Estou cansada, mas não posso dormir ainda, e aqui capto vestígios de iluminação pública para continuar escrevendo. Amanhã, podem aparecer as gringas…

Quem me lê talvez considere tudo uma loucura, mas o que não é loucura, nessa Salvador apocalíptica?

– –
Compra-se sonho (Músculozine, 2016).
+ info na página do Facebook do Projeto Ativa.
 

 

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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