o sonho de Elaine

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“Megalópole frenética e eu num buraco, histérica, fora de mim. Túneis: viadutos: pontes: elevadores: tratores: escavadeiras: gruas: betoneiras funcionavam sem meu consentimento. Quando consegui gritar, também comecei a andar, e quando me dei conta, eu subia e subia ladeiras mas nunca encontrava o caminho da Misericórdia. Subia e subia. Jamais aterrissava em lugar algum. Tive pânico quando olhei para baixo, estava mais alto que o Elevador Lacerda, podia enxergá-lo de cima e, se estendesse meu braço à frente dos meus olhos, meu dedo mindinho cobriria sua presença na paisagem. Eu subia e subia, incógnito, invisível, ninguém me via, mas eu tinha de continuar subindo, indo, subindo, indo, indo e chorando, sim, no meu sonho eu estava chorando, eu nunca choro, nunca consigo chorar, tenho meus brios, mas no sonho eu chorava e não via nada ao meu redor, a cidade havia sumido, e eu subindo, sumindo também, talvez fosse isso, eu deveria sumir, ir embora, abandonar o nada em que me deixaram, entrar dentro da minha cicatriz, da minha veia de atriz, e fazer de conta que vivo bem mesmo estando para sempre ferida.”

– trecho do livro “Compra-se sonho” – conto integrante do conjunto de atividades da Ocupação Coaty.

// Abertura: 9 de abril, às 19h. Local: Coaty. Ladeira da Misericórdia, s/n. Salvador, Bahia.

// foto: Joãozito / divulgação / Projeto Ativa 

 

 

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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