A função do psicanalista

– um conto de Katherine Funke*

P. [ pergunta do psicanalista ]
Resposta: Tive uma semana boa, obrigado. É claro que não se pode ser tão feliz quanto eu neste momento, doutor.

P. [    ]
R: Sei que parece absurdo, mas se eu fosse um mendigo jogado no lixo agora ainda assim seria feliz, afinal, doutor, meu nome é eco ouvido em toda parte. Logo será apenas mais um ponto comum na superfície de todas as coisas, mas por enquanto se destaca como merece. Sou um herói nacional, o senhor não vê?

P. [   ]
R: São denúncias vazias, não importam, ninguém nunca vai provar nada. Meu nome é um eco em todas as rádios, todos os jornais, todos os sites, todas as timelines. Até minha mãe me ligou feliz, fazia tempo que não nos falávamos…

P. [  ]
R: Sim, ela continua internada, mas deixaram telefonar pela gravidade das denúncias. Você começa a ganhar respeito social quando sua família reconhece a função pública importante de um homem corajoso como eu.

P. [  ]
R: Doutor, eu sei que para a maioria dos homens de caráter mediano deve doer esse envolvimento com a lama. Mas para meu nome é uma fase boa – ganhei respeito, saí da prisão e ainda estou tendo meus 15 minutos de fama. A delação foi premiada, o senhor soube?

P. [   ]
R: O.K. Podemos abordar o temas das minhas cicatrizes de novo, mas o senhor não entende que agora o rumo da conversa é outro, não tem mais nada a ver com aquele helicóptero? Quando eu caí, não foi uma queda intencional, o pára-quedas é que não funcionou, eu já disse…

P. [   ]
R: Se eu não tivesse tido a sorte de estar indo visitar o Senador, poderia ter morrido. Mas o senhor lembra, acho que contei, a fazenda do Senador tem colchões de ar por toda a extensão do heliporto. Graças a isto estou vivo: ao fato de ele ser um milionário hipocondríaco muito bem estruturado. As cicatrizes já não me incomodam.

P. [  ]
R: Tenho certeza de que ele vai entender que é mais uma jogada política que em breve cai no esquecimento do povo. Além disso, o Senador tem imunidade, nunca vai ser preso.

P. [  ]
R: Sim, eu poderia ligar pra ele e explicar, mas não tenho certeza de que isso faça algum sentido.

P. [  ]
R: Foi ele quem pagou minha cirurgia, é certo, mas isso não quer dizer nada. O acidente foi na área dele, se sentiu responsável, só isso.

P. [  ]
R: Meu pai? O Senador é meu pai? De onde o senhor tirou isso?

P. [  ]
R: Tudo bem, é verdade. Achava que o senhor não sabia. Não gosto de falar sobre isso. Ninguém sabe. Só eu e minha mãe.

P. [   ]
R: Se eu jogar a culpa nele, me livro de 30 anos de reclusão. Foi ele quem disse que deveria fazer isso. Está dando certo. Nenhum de nós será preso.

P. [   ]
R: O senhor quer me derrotar, doutor? Eu estava tão leve, feliz. ESSA CONSULTA JÁ NÃO DEVIA TER TERMINADO? Pegue seu dinheiro na saída, com minha secretária. Não precisa voltar. Um homem famoso e feliz como eu, afinal, não precisa de psicanalista. Passar bem.

* obviamente influenciada aqui pelo clima político brasileiro dos últimos dias e pelo estilo de David Foster Wallace. Produzido durante o Curso Livre de Contos na Biblioteca de Pirabeiraba em 12/03/2016.

 

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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