o olho que tudo vê: resenha de livro

capa-girassol

A ilustração acima é Anna Anjos, e está na capa de “Girassol Voltado Para a Terra”, de Renato Tardivo, lançamento da Ateliê Editorial. 

Olhe para o olho: o olho olha pra você. Pra nós. Tudo vê. Vamos? Antes que a esfinge nos devore.

O livro é bonito, capa dura, de papel reciclado, ao mesmo tempo com aspecto artesanal, uma edição cuidadosa e boa de manusear feita pela Ateliê Editorial. Viro as páginas lentamente, e chego à epígrafe, de Merleau-Ponty:  “Toda tentativa de elucidação traz-nos de volta aos dilemas”.

Dilema nenhum agora me assola: quero ler este livro. Já. Abro ao acaso. Adoro amar um livro assim, deixando-o que me ofereça o momento. Leio:

Fluxo

A memória morre, se desenvolve e nasce.  (p.58)

*

Fronteira 

A fronteira “amar demais – amar de menos” é uma linha tênue, um rio delicado, quase invisível. Chama-se vida. (p.59)

Acaso, como te quero bem. Elucide-me mais, preciso de ti, elucide.

*

Mergulho na leitura por uma hora, não largo o livro antes disso. Caio dentro do olho, ele me olha por dentro, olha a sociedade por dentro, suas contradições – olha o ser humano por dentro, seus pés se movendo na lama, ou parados, paralisados pelas próprias expectativas.

Noves Fora Zero

Uns esperam um milagre; outros, um enfarte. (p. 85)

O olho me olha, me ajuda a olhar. Estou dentro do olho do livro, agora entendo suas pausas, os muito brancos entre um e outro microconto, o vazio deixado para o que não é dito, a página feita terra e adubo para cada conto-semente.

Diálogo 

“Você não é de verdade”, ela me disse com dentes de quem faz elogio, e não sabia que me acertava no pior defeito. Sorri de volta, com olhos de quem agradece. (p.30)

Mais do que nunca, o escritor usa seu conhecimento de psicanálise (é psicanalista e professor universitário) e nos manda para a terapia (ou para a faculdade!), olhando lá no fundo do nosso olho, por meio das palavras, atingindo nossos piores defeitos, maiores medos e prováveis esperanças.

E tudo isso em poucas palavras, em uma experiência de leitura muito mais feita pelas nossas impressões, nossas memórias e repertórios, do que pelas poucas linhas de texto.

“Um romance cabe num microconto, mas um microconto não cabe num romance”, escreveu Sérgio Tavares, do blog A Nova Crítica, ao resenhar este livro. Muito bem colocado: e essa característica especial do gênero nos faz construir histórias, camadas e camadas de histórias por sobre a informação mínima fornecida pelo autor.

Renato Tardivo, mesmo quando escreve contos menos sintéticos, curtíssimos ainda, de uma só pagina, mas um pouco maiores, ainda assim reúne grande densidade de histórias, cada uma delas semente de flor, de girassol, prestes a cair em solo fértil e germinar – bastando para isso aceitarmos o convite da capa – olhar para o olho, e deixar que, por algum tempo, ele olhe por (dentro de) nós.

E ainda nos oferece uma volta ao dilema, fazendo humor com graves problemas – como, por exemplo, em sua paródia do famoso microconto de Augusto Monterroso, “Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá”.

Na versão de Tardivo, o dinossauro é outro. E está lá, nos fazendo rir e depois pensar, duas ações importantíssimas na vida humana, brasileira, especialmente quando rir pode parecer fora de hora e pensar, pensar um pouco mais, absolutamente proibido.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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