o jogo do Selo Jota (e mais, em entrevista com Noemi Jaffe)

NOEMI JAFFE é uma escritora experiente e sempre original que, como um gato, adora investigar um novelo (um tema, um clima, um absurdo) com inteligência e mistério; ela desafia a lógica (dominante) com argumentos às vezes paradoxais mas absolutamente defensáveis, com frases bem construídas que saltam do papel ou da tela e nos olham direto nos olhos sorrindo: frases hipnóticas como o olhar da própria Noemi nas suas raras fotos de divulgação.

Em seus livros, artigos, postagens de blog e Facebook (da qual é usuária assumida, sem medo de ser feliz), Noemi parte sempre do que há de mais palpável e concreto para, numa fração de segundo, subir no telhado, ou ter a coragem de certos gestos de provocação a mais.

Então, era de se esperar mesmo que demonstrasse ainda mais saúde para as complexidades do humor quando coordenasse um selo literário. Para o Selo Jota, parte do catálago da editora E-Galáxia, Jaffe recorreu aos deuses do Oulipo: Ítalo Calvino, Raymond Queneau e Georges Perec.

O que isso quer dizer? Que as narrativas do Selo Jota da editora e-galáxia têm em um comum algumas “restrições” ou “limitações formais” prévias inspiradas claramente nas propostas franceses do grupo Oulipo.

Ou seja, o autor tem de assumir o próprio texto como um jogo, o que já muda toda a lógica criativa. Para O capricórnio se aproxima (2014), o primeiro título do selo, quatro regras foram estabelecidas:

AS REGRAS DO JOGO

É expressamente proibido o uso de adjetivos;

É obrigatório o uso de todas as letras do alfabeto em cada um dos capítulos, incluindo K, W e Y. As repetições não serão consideradas;

É obrigatório o uso de pelo menos um numeral em cada capítulo;

Cada capítulo poderá ter no máximo 500 palavras.

Títulos de autores do grupo Oulipo serão diretamente homenageados nesse processo. Já de saída, o livro criado por Flávio Cafiero se espelha em Zazie no Metrô, de Queneau. Lá estão, também, pessoas se movimentando pelo trânsito caótico de uma grande cidade esquizofrênica, que não é Paris, mas Rio de Janeiro. A trama de O capricórnio se aproxima reúne personagens descobrindo/encobrindo sua homossexualidade, saindo/ficando em suas famílias, enxergando o mundo de novo (ou para sempre) como uma criança capeta, zombeteira, capaz de desconstruir uma mentira daquelas que os adultos contam “por precaução” e, mesmo sabedora da verdade, não revelá-la jamais, de um modo ao mesmo tempo precavido, atrevido e sapeca.

Cafiero inventa um sistema bem bolado de códigos apresentados como “lendas” na família do protagonista (como chamar puteiro de planetário, por exemplo). E aproveita as regras estabelecidas por Noemi para escrever em ritmo rápido, com uma musicalidade própria e uma diversidade ampla de referências pouco encontrada em uma novela curta como esta.

Exemplo: o autor batiza uma rua com o nome de Stefan Zweig, o que talvez não acontecesse em uma novela curta se não fosse a regra de utilizar todas as letras do alfabeto, incluindo o W, em todos os capítulos.

Aos olhos dos leitores, especialmente para os que conhecem o romance de Queneau, fica a impressão saudável de uma partida muito bem jogada. Cafeiro atinge a meta máxima de Noemi: promove um salto inteligente por cima das mornidões interiores entediantes. É o pulo do gato, direto para o novelo de lã.

E o que Noemi tem a dizer sobre o caso? Entrevistei a autora no final do ano passado, e lá vão as respostas, que permaneceram inéditas até esta postagem.

capa-cafiero

Como se configurou a ideia de Jota e o que podemos esperar da coleção?
A ideia começou porque escrevi um livro para a “e-galáxia”, o “comum de dois” e, a partir disso, os editores, Tiago Ferro e Mika Matsuzaki, duas pessoas muito dedicadas, talentosas e pioneiras, me convidaram a criar um selo. Sabem que eu tenho acesso a vários novos talentos, porque dou várias oficinas de Escrita Criativa há muitos anos e acabo conhecendo pessoas que não têm acesso direto ao mercado. Em função disso, comecei a convidar alguns alunos e ex-alunos a escrever livros cujo formato acredito funcionar para esta mídia eletrônica: livros mais breves, com textos mais dinâmicos. Surgiu essa ideia dos desafios, que é uma técnica que uso muito nas minhas oficinas e que potencializa muito a escrita. O que se pode esperar são textos bem particulares, com linguagem mais experimental, sem que isso signifique hermetismo.

Vamos falar um pouco das regras do jogo: proibido o uso de adjetivos; capítulos curtos, de no máximo 500 palavras; e, em todos os capítulos, usar numerais (pelo menos um) e todas as letras do alfabeto, incluindo as minorias (K, W e Y). Explique um pouco a razão dessas definições. Não são tão radicais, mas tampouco simples de serem cumpridas…
Essas são as regras definidas apenas para o primeiro livro da coleção, do Flavio Cafiero, livro que já foi lançado. Para o Samir Mesquita, o próximo autor, as regras são outras, assim como para a Ana Estaregui, a terceira autora da coleção. Para cada novo autor, novas regras. Nunca fáceis, mas, como você disse, também não difíceis demais. Não há propriamente uma razão para as restrições. O autor é que é obrigado a encontrar uma razão para elas, a partir do que eles escreve. A ideia é justamente essa: fazer com que as regras, a princípio arbitrárias, ganhem uma razão de ser.

apresentação de Noemi Jaffe para o livro O capricórnio se aproxima
apresentação de Noemi Jaffe para o livro O capricórnio se aproxima

O capricórnio se aproxima tem um início muito ritmado e bom, e me lembrou um pouco clima de Zazie no Metrô, de Raymond Queneau. Em que medida a comparação (natural) com autores do grupo Oulipo preocupa vocês, e o que buscam como resposta inovadora?
Isto não me preocupa em absoluto. Tudo o que se produz, em literatura e também nas outras artes, é baseado em algo que já se fez. Entre esta proposta e a do Oulipo, há semelhanças e, é claro, diferenças, relacionadas, à época, ao lugar e às individualidades de cada escritor e autor. Ideias não são propriedades. O que é propriedade é o que se faz com aquela ideia.

O que podemos esperar dos próximos livros?
No livro do Samir, eu o desafiei a contar uma mesma história simples, a partir de dezenas de pontos de vista diferentes, semelhante ao que fez Queneau em Exercícios de Estilo. O resultado ficou muito bom. Já para a Ana eu sugeri um personagem com quem ocorrem mínimas mudanças a cada novo capítulo, de tal forma que no último capítulo ele não se pareça em quase nada com o primeiro.

Vamos falar um pouco de seu e-book “comum de dois” (e-galáxia, 2010). Impossível ler sem se identificar com as cenas de casal ali descritas, e não é apenas o formato de diálogo que ajuda, mas também o modo como revelam as angústias contemporâneas – como a ideia de que inferno seria ter controle remoto para tudo e não saber usar nenhum. Contudo, você faz isso com muita simplicidade (nem de longe é um livro difícil de ler). Como é que foi a estratégia de produção deste livro? Ou – sei lá – não teve estratégia alguma?
Há algum tempo que mantenho um blog em que escrevo pequenas crônicas do cotidiano, e faço isso também no facebook, além de praticar algo semelhante com meus alunos. Gosto muito de ouvir os diálogos na rua, tentar capturar os trejeitos, as manias linguísticas, as idiossincrasias. Acho que isso constitui grande parte da forma como as pessoas pensam e se localizam na cidade e no mundo. Procurei passar isso, de alguma forma. Diálogos comuns de um casal comum.

Você tem um outro livro que também se vale de diálogos – Todas as coisas pequenas– e que é bem diferente. Alías, você já leu esse comentário de uma leitora sua no Skoob? O que diria para ela?

Viajei legal

Lição número 1, nunca acredite que um autor que lhe fez dar 5 estrelas em uma de suas obras, vai fazer as mesmas estrelinhas brilharem… e aja balde de água gelada na minha expectativa.

Vamos lá, esse livro não é ruim, mas não consegui assimilar todas as informações que ele realmente pretendia passar. Não sou do tipo “filosófica”, e muito menos consigo compreender todo o blá-blá-blá Freudiano ou afins. Sou do tipo de pessoa que lê coisas simples e claras e se começar a “complicar”, minhas ideias surtam e começam a “pipocar”. Infelizmente foi isso que aconteceu comigo ao ler esse livro, que também segue a linha de diálogos do livro Comum de Dois só que desta vez, entre coisas, pessoas, animais, Deus e e.t.c… Pensa numa cabeça louca? Pois bem, foi a minha e no final das contas, tive uma tremenda crise de riso incontrolável. Acho que pelo menos pra isso me serviu… sorrir! 3 estrelas está de bom tamanho para minha “ignorância” filosófica.

O livro “ Todas as coisas pequenas” não é um livro de crônicas. É um livro de poemas, em que o trabalho com a linguagem é bem mais denso, comprometido e particular. Não pretendi, como no “ comum de dois”, criar algo “palatável”, em que as pessoas se reconhecessem com facilidade. Os diálogos com Deus são problemas poéticos e ontológicos, com um alcance que eu espero maior. São nós, paradoxos pessoais, como pensar em não acreditar, mas temer ser punida por isso.

Adoro seu blog “quando nada está acontecendo”, e você também gosta muito, pois o alimenta várias vezes por semana. Embora seja muito livre, pois é um espaço independente e autogestionado, você jamais publica textos sem valor literário. Quais os desafios que este blog te apresenta, como autora?
Adoro o blog também. Lá me sinto livre e, ao mesmo tempo, sei que há pessoas que o lêem. Escrevo, protesto, pesquiso linguagens, palavras, faço o que quero. O desafio, muitas vezes, é como transformar uma pequena iluminação em um texto que tenha valor literário. Como dizer muito com pouco?

Foi muito corajoso seu artigo “Teimosa humanidade” (FSP, 24/04/2014), apontando a fragilidade das assertivas de Luiz Felipe Pondé. Quais foram as repercussões mais bacanas dessas suas iniciativas, até agora?
No artigo sobre o Pondé houve repercussão positiva e negativa (fui muito criticada por um colunista da Veja). Gostei das duas, porque acho que são significativas sobre quem as produz. Aprendi bastante e ainda aprendo com esse tipo de posicionamento, pois muitas vezes me considero precipitada, outras vezes, ao contrário, atrasada. É um jogo do qual quero fazer parte, embora não seja algo fácil, nem em termos de escrita e tampouco em termos políticos. Não critico quem não quer se envolver, de forma alguma. Muitas vezes, eu mesma prefiro silenciar. O silêncio também pode ser uma ferramenta bem ativa.

entrevista de Noemi Jaffe para Katherine Funke
em dezembro / 2014. publicada em abril / 2015.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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