conto Subterrâneos, na íntegra

SUBTERRÂNEOS
conto de Katherine Funke*

Caminhava no canto da calçada. O peito pesava mais do que o sapato. Disseram-me na padaria que eu parecia doente. Paguei em dinheiro miúdo. Saí calada. Queria ser invisível, uma moita, um mato.

Em mim só existem eu e mais um milhão de vozes que não são minhas. Movi meus sapatos para fugir, mas não consegui velocidade suficiente. Fui atingida por uma delas na esquina da Gaulês com a Estácio.

“Ainda haverá certeza depois de uma cerveja?”, perguntei-me.

Parei.

“Sim, claro”, respondi-me.

“Então beba.”

Claro. Beber. Cerveja. Aquela voz mandava em mim.

“Cale-se”.

Não, eu não ia beber. Seria perder ainda mais tempo com aquelas vozes que me jogavam para lá e para cá, em impulsos turbulentos que levavam a lugar nenhum.

Vi as primeiras luzes da cidade quando cheguei no fim da Rua Roma. Resolvi acelerar o passo pra chegar em casa antes do desejo crescente de cerveja tomar conta de mim.

Continuei a andar. A cada passo eu ouvia um pedaço da palavra, cer-ve-já, cer-ve-já, hipnótico, quase um mantra. Tentei cantar uma música, não consegui.

“Seria melhor ter tomado uma cerveja. Dar um brilho.”

A voz mandava. Parei no bar da Sônia. Quer dizer, eu não sabia o nome da proprietária, mas chamava ali de bar da Sônia porque foi ali que a conheci.

Tomei uma e segui.

O peito ainda pesava mais do que o sapato. Sô-nia, Sô-nia, diziam agora meus passos, e quando notei, já havia descido a ladeira.

“Você tem certeza de que quer fazer isso?”

“Quero”.

Quando minha mente começa a conversar com ela mesma, aí vem algum problema. Eu sabia. Protestei contra mim: tentei prestar mais atenção na chuva fina, na sensação da pele, no calor do meu corpo por debaixo da umidade.

Mas não consegui. Sô-nia, Sô-nia.

Ela adorava Caio Fernando Abreu. Eu também. Ela amava Hair. Eu também. Parei de lembrar de tudo. Ela não me deixou nada.

Segui caminhando pelo canto da calçada, bem rente ao muro. Não era longe, mas eu evitava aquele trecho desde que Sônia sumiu com uma de suas alunas estrangeiras.

Parei na frente da casa dela. Quatro meses sem tocar aquela campainha, e parecia ontem aquela noite de vinho, de jazz, de despedida.

“Chame.”

“Não”.

“Chame.”

“Não.”

Minha mente. As horas heróicas, a endorfina. A adrelina, os beijos no pátio dos fundos, escondidos do mundo. Eu e ela, nós duas. Sônia, Sônia, por onde você anda?

“Ela não mora mais aqui”, informou uma voz masculina pelo interfone. “Sinto muito, não possuo novo endereço.”

“Mas essa casa era dela, não era?”

“Não, não, querida. Era alugada.”

Olhei para a janela do quarto dela. Luzes acesas. Nem mesmo um e-mail, depois de dois anos juntas. Nem mesmo um e-mail. Escrevi tantos. Tantos. Todo dia. Todo dia, menos hoje.
É. Devia ter tomado mais uma. Só o que consegui foi me mover de volta, passo por passo, sozinha, cada vez mais para fora do caminho.

* texto de Katherine Funke integrante da antologia Desordem, produzida via financiamento coletivo aberto no momento pela plataforma Bookstorming.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

2 comentários em “conto Subterrâneos, na íntegra”

  1. Adorei o conto. Enquanto lia consegui visualizar as cenas tão bem. Massa.

    Grande abraço viu. Tô torcendo por “Desordem”

    Edivania

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