bem devagar, antes que acabe

[ uma historinha de ninar ]

Era uma vez um ano em que o mundo iria acabar. Naquele ano todas as mulheres tiveram filhos. Todos os homens pararam de trabalhar. Era uma vez um ano em que as contas se acumulavam porque ninguém via mais motivo para pagar. Pararam também de comprar coisas, inclusive pão.

Aí, o padeiro aposentou o forno, e as pessoas tiveram de comer fruta-pão em vez de pão. O problema é que já não havia muitos pés de fruta-pão disponíveis. A cidade inteira era feita de prédios, não de árvores.

Muita gente ficou com muita, muita fome, mais fome do que qualquer um de nós pode imaginar. Se andassem bastante, poderiam encontrar campos cheinhos de árvores de fruta-pão. Mas ninguém estava mais com vontade de trabalhar, sair para colher, carregar, vender, organizar.

“Hoje não”, diziam. Depois se calavam. Não comiam nada e tentavam não pensar em nada. “O mundo vai se acabar mesmo!”, repetiam, e mantinham os olhos abertos para ver o mistério dos tempos findar.

Aí, dezembro chegou. E o calendário continuou a marcar a passagem do dia e da noite, do dia e da noite, do dia e da noite. Sem parar. O dia 21 passou, e o dia 22, e o dia 23. E os shoppings não ficaram lotados porque ninguém havia se preparado para o Natal. Todos ficaram aliviados com isso. Mas o padeiro voltou a trabalhar: abriu uma venda de fruta-pão. E de outras frutas também. Ganhou uma nota: embrulhava pra presente.

Era uma vez um ano em que a vida na Terra não acabou, mas começou de novo. Diferente. Quem morava em prédio descobriu que era preciso ter sempre um lugar pra plantar. E saber plantar. Porque quem planta não precisa trabalhar tanto para comer. E comer é o único motivo justo para trabalhar.

É por isso, meu filho, que tem tanto pé de fruta-pão no alto desses prédios.

As pessoas querem viver mais, cantar mais, tocar mais música, cuidar mais de quem amam, passear mais com seus cães, aninhar mais seus gatos, contemplar mais o céu, as nuvens, as estrelas, a lua e o sol. Querem mais um cigarro, mais um trago, mais um beijo. Sem pressa, sem tempo a perder. Bem devagar. Antes que o mundo se acabe.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

Um comentário em “bem devagar, antes que acabe”

  1. Oi Katherine. Muito bela a sutileza das palavras, como as usa, como provoca os sentidos dos leitores mais sensíveis… Desenterrando silêncios em uma história bem feliz. Grata…

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