se existe céu, então é isso / entrevista de investigação #6: davi boaventura

O impulso original desta série de entrevistas foi perceber que alguns livros podem pedir para ser devorados de uma só vez. Mais que isso: apesar de caberem em um só acesso de leitura compulsiva (que pode durar duas, três noites, a depender do tempo disponível), nos levam a outro universo e deixam-nos inebriados por dias, semanas, meses, anos – voltam como flashback ou antecipam cenas da vida, e se você é doido por literatura como eu, certamente sabe do que estou falando.

Atenta a esses princípios, não dá para deixar de registrar o lançamento de talvez não tenha criança no céu, de Davi Boaventura.

Se este fosse um blog noticioso, eu teria muitos motivos para falar deste livro: o fato do autor ser o único baiano lançado pela editora Livros de Safra, por exemplo, e do seu material ter recebido um tratamento extremamente caprichado da editora.

(O design está sensacional, especialmente a capa com a ilustração de Matheus Frey, que também assina as ilustras do miolo.)

Minha curiosidade aumentou quando descobri que Davi Boaventura constituía um mistério: está muito próximo de mim e eu não o conhecia. Moramos no mesmo bairro – eu passo perto da casa dele muitas vezes por semana – e já trabalhamos na mesma empresa (embora eu não me lembrasse disso; ele me avivou a memória: trabalhamos em cantos opostos da redação do jornal A Tarde, aqui em Salvador).

Outra razão para falar de talvez não tenha criança no céu poderia ser a frase de Daniel Galera na contracapa, que me chamou atenção imediata no dia em que tomei conhecimento do livro (porque, como Boaventura, admiro deveras a literatura de Galera): “Um relato sufocante dos estertores de uma adolescência sem rumo”.

Some-se a tudo isso o sucesso do lançamento: 150 livros vendidos em noventa minutos de lotação da Livraria Cultura de Salvador, contou Davi…

Mas o que dá mesmo sentido à presença dessa investigação aqui no blog é o seguinte: eis um desses romances que pegam de jeito; você começa, não consegue fazer outra coisa antes de terminar. Como um bom blues, é uma prosa que rola fácil, mas às vezes provoca riso, dor, melancolia ou outro desses sentimentos terríveis. Para ser um bom blues, precisa ser bem tocado, e esas é a parte mais bacana do livro: é muito, mas muito bem escrito.

Logicamente, para ter essa sensação, o leitor também precisa ter alguma identificação com o microcosmos do romance. Eu tenho; ou melhor, tive, na minha adolescência, e na verdade não gostaria de deixar de ter, posto que acredito que certo grau de loucura adolescente e a constante dúvida de que exista céu devam fazer parte da nossa vida para sempre.

O protagonista do livro – um rapaz em fim de férias, sem saber o que quer da vida, sem saber nem mesmo se vai fazer vestibular no fim do ano, entre festas, meninas, dramas alheios e os próprios – nos é apresentado na primeira pessoa. O narrador, contudo, já está alguns anos mais velho. Não muito, mas a ponto de fornecer a si mesmo uma versão clara de seus sentimentos e do que ocorria.

Eu não era feliz, nunca fui, nem queria ser, na minha cabeça confusa e contraditória eu simplesmente esperava ser um pequeno pedaço de vácuo sem ter a obrigação de pedir desculpas por essa ofensa. Luísa, durante uma tarde deprimente de nosso microrrelacionamento, me avisou: este momento ia chegar, era inevitável diante da minha insistência em rejeitar o curso natural das coisas e diante da minha predisposição para o fracasso. Lembro bem, ela no meu quarto, irritada, arrumando a bolsa, queria ir embora depressa depois de nós termos brigado e antes de bater a porta, ela me avisou: que eu podia ter a certeza que meus pais, meus amigos, meus professores, eu me preparasse porque eles um dia iriam me considerar doente e do pior tipo: aquele que não quer se curar.

As frases longas, dramáticas – algumas cortadas por pontos mas ainda assim unidas pelo ritmo – sufocam pela densidade existencial. Ao mesmo tempo, a naturalidade com que incluem a fala coloquial da região metropolitana de Salvador para o texto (usando expressões como “porraniuma”, por exemplo) produz um efeito de companheirismo entre o narrador-protagonista e seus pares na história, o que ajuda na sensação de verdade/de realismo que um universo ficcional precisa para convencer.

Além do domínio da ficção, Davi Boaventura demonstrou ter fôlego nas últimas semanas: respondeu talvez uma dúzia de entrevistas, duas, três, ou mais… Publico a nossa com uma simultânea sensação de felicidade pelo novo vizinho escritor que ganhei – e pela admiração que me cabe ter a uma peça literária de alta qualidade dessa natureza.

*

Katherine Funke – Você conhece A Banda do Companheiro Mágico, de Antonio Risério, ou outros romances/novelas juvenis autores baianos? Como seu livro se situa neste contexto local – ou você não se preocupa com isso?
Davi Boaventura – Ainda não conheço. Vergonha em admitir, mas minha influência na literatura é muito anglófila. Não é falta de interesse, veja bem, muitas vezes é falta de acesso ou simplesmente dificuldade de conhecer os trabalhos mesmo, você bem sabe como divulgação de literatura na Bahia é um processo complicado – a começar pelos porteiros-seguranças-de-filme-de-James-Bond… Bem, dos que eu conheço, apesar dos textos deles irem mais para o lado infantil, posso falar com prazer de Breno Fernandes e Saulo Dourado, que são dois jovens como eu, mas que já escrevem há bem mais tempo, de certa forma conhecer os dois me fez acreditar que escrever livro na Bahia não é o apocalipse, embora passe perto. No contexto local, eu sinceramente nunca pensei em termos de “ah, quero que meu livro se coloque em tal lugar”. Eu só tentei escrever o melhor que eu podia escrever dentro de minhas capacidades e habilidades.

KF – Moramos no mesmo bairro, então não pude deixar de notar referências geográficas reais. Sua casa, mesmo, fica perto da portaria de Vilas do Atlântico, um pórtico em forma de arco, descrito no livro como cenário próximo da residência do personagem. Trata-se do único detalhe autobiográfico da trama, ou tem mais? Qual foi sua intenção ao incluir a geografia do lugar onde você mora na história?
DV – Eu usei as referências geográficas e alguns detalhes autobiográficos para rechear o universo, dar mais consistência. Eles me ajudaram a enxergar melhor os personagens, em especial.Mas passa longe de ser autobiográfico. Teve repórter tentando forçar uma relação autobiográfica, o que me deixou até frustrado, como se não fosse possível falar de um ambiente real sem falar da própria vida. A ideia nunca foi ser uma obra “local”, porém. Tanto que apaguei os nomes dos lugares e, em determinado momento, cheguei a pedir para que a divulgação nem enfocasse esse aspecto. Mas, no final, a referência acabou sendo um chamariz forte, pelo menos na imprensa daqui. O [jornal] Correio mesmo fez uma edição fabulosa – na página da esquerda, tem um cantor, também morador de Vilas, falando que a música dele é praieira, a partir do alto astral do bairro; do lado direito, eu apareço falando que nunca me adaptei totalmente ao lugar e que é uma rotina vazia. Eu não consegui parar de rir, para você ver como o bairro é uma situação complexa.

KF – O escritor Daniel Galera, que assina a frase da contracapa, também enviou comentários críticos bem pontuais sobre o livro. O que ele disse e o que, dessa análise, serviu para a evolução da obra em questão e também da sua formação como escritor?
DV – O Galera focou bem a questão da técnica, pediu para atenuar um pouco as cenas de bebida e descontrole, para dar um equilíbrio maior ao texto, foi muito mais detalhista do que eu esperava. Aliás, eu nem esperava. Porque minha editora não me avisou nada, só me enviou o texto dele e me deixou ficar em choque. Mas foi fabuloso. Eu passei meses lendo e relendo Até o Dia em que o Cão Morreu e vivia dizendo para minha namorada que, se meu livro tivesse 10% da alma que aquele livro tem, eu ficaria satisfeito. Então imagine… Mandei um e-mail agradecendo e ele foi gentil ao extremo em responder, falou que torcia bastante pelo livro e tudo, que um dia até pegava meu autógrafo – lógico que aí é a parte da gentileza, mas imprimi a página por via das dúvidas…

KF – E o que você está lendo agora?
DV – Rapaz, eu estou lutando para terminar Ulysses. Mas outros estão atravessando. Estou para começar Vício Inerente, do Pychon, e quase terminando Junkie, do William Burroughs. Aí eu enfrento os 13 que me esperam na estante…

KF – Ulysses se passa em apenas um dia, e é mais ou menos o caso do seu livro – claro que as comparações param para por aí. Ou não? …
DV – Param, param. Tá doido, tenho aquela capacidade toda, não.

KF – Lê-se rápido seu livro, e no fim ele se passa mesmo em um tempo cronológico curto – um dia, dois, na vida dos personagens. A sensação de texto fluente, bem contado, vem de um esforço seu: você demorou anos para escrever e lapidar o texto final – mais ou menos oito anos, não foi isso? (Foi também o que aconteceu com Ulysses, escrito entre 1914 e 1922…). Nesse processo, o que foi mudando na forma /no estilo do texto e mesmo na sua forma de conceber o livro?
DV – Mudou igual cabelo da Elke Maravilha. Nestes oito anos, o único capítulo que passou quase sem retoque estrutural grande foi o primeiro, mas no começo ele era o segundo. Era um texto um bocado imaturo, cheio de “manifestos”, porque era uma coisa de descarregar mesmo. Alguns diálogos tinham falas de dezoito linhas, meio Fidel Castro discursando. Depois da minha primeira versão, meu objetivo sempre foi limpar o texto, eliminar tudo que fosse inútil e deixar o livro o mais ágil possível, que o leitor pudesse ler rápido, respirando pouco, e que, se tudo der certo, ele possa ter uma diversão com algum conteúdo – acho que o maior problema de literatura jovem (veja que nem gosto do termo juvenil) é que o sujeito é muito subestimado e a maioria cai em uma dicotomia, ou é divertido, mas fútil, ou é inteligente e inacessível; eu tento superar justamente isso, espero ter conseguido. Os amigos também ajudaram bastante, vários comentários foram inclusos no texto a partir das falas deles. E o título me ajudou bastante a entender o produto como um livro. Antes me parecia um pouco brincadeira, meu primeiro título mesmo lembrava paródia de livro policial.

KF – Você usa frases bem longas, às vezes, para passar ideias ágeis, encadeando ações, sensações e referências comuns a adolescentes (O Apanhador no Campo de Centeio entre elas), e certa ousadia nas cenas de sexo, drogas e rock’n’roll. O que a idade do narrador no ato de contar a história (já aos 20 anos, relembrando seus tempos de guri), e a sua própria idade e experiência, tem a ver com o ritmo e o tom que você adotou?
DV – O ritmo ágil sempre foi um dos pontos mais centrais para mim, acho que ouvi Nirvana demais nos últimos anos… A questão é que eu queria um texto o mais verdadeiro possível, que o jovem possa se identificar, mas que, principalmente, eu acreditasse. Eu, por exemplo, não me identifico com esta moda da fantasia. Leio, assisto todos os filmes, Jogos Vorazes mesmo é um espetáculo, mas a maioria é escapismo – meu narrador fala bastante em fuga, mas o que ele quer mesmo é existir, isso eu não encontro em Crepúsculo. Sobre a idade, ela me ajudou a entender melhor o que eu tinha nas mãos, a limpar os excessos. Mas o “eu” de dezoito anos ainda é dominante ali, pelo menos no sentimento da obra.

KF – Você esteve recentemente com Franca Treur, autora holandesa cujo Confetes na Eira vendeu 150 mil cópias no país dela, e aqui no Brasil foi lançado também pela Livros de Safra. Em que situação vocês se encontram, e sobre o que conversaram?
DV – A Franca veio descansar em Salvador, depois de participar da Flipoços, além de eventos em São Paulo e no Rio. Foi bastante interessante porque a visão do mercado literário dela é bem diferente da nossa, a dimensão é muito maior. As conversas foram de todo tipo, ela é muito boa de papo, tivemos até recital de Nietzsche em holandês, na voz radiofônica de Saulo Dourado. Particularmente, fiquei curioso em perguntar sobre as questões religiosas dela, porque ela veio de uma comunidade muito fechada, o oposto do que a gente imagina para o país, e agora vive em Amsterdã. Percebe-se que ela mudou, mas certa timidez ainda ficou latente.

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p.s.: pessoal, estou entrando na “partolândia”; volto assim que o bebê deixar…  muchas gracias por virem a este blog. valeu! voltem sempre!

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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