sutilezas em vermelho-perigo / entrevista de investigação #5: joão lin

O entrevistado de hoje não é apenas escritor.

O pernambucano João Lin é poeta, ilustrador, quadrinista, cartunista, designer, educador, editor da revista Ragu. Também faz videoarte, intervenção urbana, fotografa. Sintetiza um mundo em uma página, um traço, um haikai. Seus olhos são pequeninos, mas a visão vai longe. Tem algo de mestre zen-budista, outro tanto de agitador político. Perigoso, o moço? Não tanto quanto gostaria. É o que ele mesmo diz…

Como editor e ilustrador, Lin acaba de lançar, com o também múltiplo Christiano Mascaro, a segunda caixa do projeto Ragu Cordel: são doze libretos de literatura de cordel. Mas não aquele cordel de sempre. O projeto tem bastante de subversivo, especialmente para os puristas das linguagens tradicionais. Ele transcende o cordel; conta histórias sem palavras, ou com poesias sem rima, ou muita ação em quadrinhos.

Por aí já se vê como Lin traz perigo à nossa sociedade…

Ragu Cordel torna o cordel uma narrativa contemporânea, onde não existem tantas fronteiras entre gêneros e todos podem ser mesclados com a meta de contar uma boa história. O que se mantém é o aspecto fantástico, aventuroso e às vezes místico dos causos. Futebol no Inferno (José Soares, por Flavão) e O cordelista, o conto e o pistoleiro (Samuca) hão agradar mesmo os mais antigos dos cantadores.

Outros, talvez, causem mais estranheza.

Na caixinha de finalização caprichada, por exemplo, dá para ler sem travar a língua em sextilhas ou septilhas. Basta deslizar atentamente o olho pela história criada e desenhada por Mascaro (A Morte do Violeiro): nem uma palavra, umazinha sequer. Pra quê?

Se o cabra insistir que cordel tem de rimar, tudo bem, que rime. Mas, em vez da típica métrica do gênero, toma-se emprestado do século 21 toda a liberdade nos versos, acompanhados de estilosas “quase-xilogravuras”, como fizeram Siba e João Lin em Vale do Jucá:

Mais bacana ainda é que o projeto da Ragu Cordel é um braço da revista Ragu, que já tem oito números lançados (desde a edição zero) em seus doze anos de existência. Editada por Lin e Mascaro, a revista Ragu publica narrativas visuais de diferentes autores, com traços variados e máxima liberdade de expressão. O número mais recente saiu em 2009, em formato livro, com 33 colaboradores, entre brasileiros e convidados estrangeiros, especialmente latino-americanos. O próximo volume, de número oito, ainda não tem data para sair.

Ao ler as histórias de Lin na Ragu, sempre me pergunto: como não ficar intrigada com um trabalho excelente do ponto de vista gráfico, e ao mesmo tempo do poder narrativo?

O fato é que Lin sabe abusar das suas múltiplas habilidades. Na linguagem visual, usa muito vermelho e preto, muito alto constraste, mas também tons pastéis muito sutis e traços finos de nanquim. Abusa do geométrico e do cubismo, paralelamente a quadros soltos nas HQs, sem a formalidade habitual.

Com as palavras, o moço oferece perigo equivalente, ou ainda maior. Cria haikais, outros versos e prosas de grande densidade poética. Até despidas de seus jogos visuais, as histórias que ele cria são sui generis.

Veja o exemplo desta fábula non-sense e existencialista, publicada na Ragu número 3 (2001):

 O consertador de coisas miúdas

Relógios, isqueiros, canetas, chaveiros, caixas de música, rádios portáteis, calculadoras, carrinhos de brinquedo… Quanto menor fosse o objeto, maior sua habilidade para consertar, não importava o tipo nem a origem.

A sua casa era mínima, assim como os objetos que gostava de consertar. Não sabia o motivo do seu prazer em mexer com pequenos mecanismos.

Ver funcionando essas coisinhas o deixava feliz.

Algumas vezes não conseguia resolver os problemas de um objeto, mas na esperança de surgir alguma solução com o passar do tempo, guardava-os nos compartimentos de coisas ainda sem conserto.

Acreditava ser impossível não ter conserto para algo que um dia já funcionou. Por isso não desistia, olhava diariamente para os mais de cem compartimentos de coisas ainda sem conserto. Não tinha pressa, não procurava desesperadamente uma solução.

Para ele, não procurar era o melhor caminho, como uma mágica involuntária, uma iluminação, uma revelação inevitável. Era só uma questão de tempo. Estava envelhecendo, mas isso só aumentava sua habilidade com os pequenos mecanismos.

(…)

Não sabia de onde vinham as tais coisas miúdas. Isso não o preocupava, mas era tomado por uma enorme angústia quando pensava que um dia morreria sem que tivesse o tempo necessário para solucionar centenas de pequenos problemas guardados dentro daqueles compartimentos de coisas ainda sem conserto.”

Captou? Quer mais?

Mesmo que você não conheça nenhuma das edições da revista Ragu, se prestar bem atenção, notará que o trabalho de Lin está por toda parte: em revistas (Bravo!, Tam), jornalões e livros.

Nas livrarias, Lin pode ser encontrado em Domínio Público, projeto em dois volumes do selo Ragu Livro, onde desenhou, por exemplo, um conto de Olavo Bilac sobre o jogo-do-bicho, adaptado para os quadrinhos; está em Ovo, metáfora da trajetória da criação do mundo, publicado pela Livrinho de Papel Finíssimo Editora; está na síntese visual dos “Vestígios” do Rio Guaíba, lançada na Feira do Livro de Porto Alegre de 2011, resultado de um trabalho que misturou videoarte, intervenção e quadrinhos…

E ilustra ou cria capas para livros de outros autores, especialmente de histórias infantis, como Tatiana Belinsky (nas recentes traduções de contos de Krylov, em dois volumes), Luiz Bras e Tereza Yamashita (em A menina vermelha), Flavia Savary, Miguel Sanches Neto (em De pai para filho), entre outros.

Com essa experiência, certamente João Lin tem muito para contar. Então, bóra lá…

*

Katherine Funke – Você tem um trabalho bem autoral: cria histórias, escreve-as em prosa ou poesia, e as desenha com uma grande liberdade formal, sem se prender a escolas específicas. O que vemos parece ser resultado de um processo de erros e acertos, de pesquisa e aprimoramento, de muitos anos. Conte um pouco de sua trajetória, de suas influências, seus mestres, para a gente entender de onde vem tanto domínio sobre essas diferentes formas narrativas…
João Lin – Gosto da expressão “mestre”, ela anda meio em desuso, mas respeito o seu significado. Tive sempre sorte, encontrei muitas pessoas que me revelaram coisas importantes sobre arte, criação, sobre mim e sobre o meu desenho. Tive muitos amigos artistas que foram generosos comigo. Aprendi bastante com mestre Ral que botava a maior fé no meu trabalho, mesmo quando eu acreditava pouco. Ele enxergava coisas que eu não conseguia ver, a exemplo da força da síntese no desenho. Lúcio Mustafá foi outro desenhista e amigo que me instigou e inspirou, juntamente com Roberto da Silva, que era um cara instigadíssimo e estava sempre ligado em 380 volts. Aprendi com minha mãe que foi bordadeira, costureira e sabia colorir com uma certa estranheza e harmonia incomuns, acho que herdei isso dela. (Meu pai era dono de farmácia, assim como meu avô). Outro amigo que me deu várias dicas valiosas foi Mascaro, uma parceria que já tem mais de uma década. Com outros… aprendi vendo/lendo o seu trabalho, como: Zimbres, Millôr, Steinberg, Paul Klee, Sempé, Guazzelli, Mário Valle e por aí vai. Sempre fui eclético e sempre tive dificuldade em me manter num só caminho, sou muito influenciável. Tenho interesses bem diversos e não me incomoda a mácula, a interferência de outros discursos no meu trabalho. Não quer dizer que eu seja assim noutras dimensões da vida [risos], infelizmente. Uma coisa que sempre me instigou foi a ação política (sou de aquário). Comecei a militar nas pastorais católicas, depois no movimento estudantil, no partido e nos movimentos sociais. Comecei desenhando para sindicatos, para o PT, para os movimentos populares… E por ironia do destino também já desenhei para o exército, fiz álbuns seriados, instruções de armas, e coisas assim… Hoje meu trabalho é cada vez mais diversificado, ilustro para literatura para crianças e jovens, mas faço peças mais jornalísticas e tenho desenhado muito para encartes de músicos e bandas. Este é um trabalho que me instiga demais e onde me sinto à vontade para experimentar e trocar figurinhas com o pessoal de música.

KF – Além de autor, você também desenha, edita e faz design para histórias criadas por outros escritores. Qual o maior prazer e a maior dificuldade que você já teve, nessas duas experiências distintas?
JL – Não vejo tanta diferença entre fazer uma HQ que eu criei desde o argumento até o desenho, e uma ilustração a partir de um texto de outro autor. Não do ponto de vista criativo. Considero que ambos me dão as mesmas possibilidades de criação. Alguns limites existirão nos dois casos, como por exemplo: formato do livro, quantidade de cores, quantidade de páginas. Estas coisas não dependem apenas da criação, mas de circunstâncias de produção, portanto não são questões essencialmente criativas. Claro, existem trabalhos que motivam mais, porque o tema te interessa, porque você se sente mais à vontade com ele etc. Essas características não dependem de ser uma encomenda ou de uma decisão, necessariamente, do autor. No caso da encomenda, você tem menos possibilidade de decidir tema/conteúdo, mas também pode optar entre fazer e não fazer tal trabalho, caso ele não te motive ou você não tenha afinidade com o tema. O que eu quero dizer é que todos os trabalhos que eu faço busco me colocar como autor, fazer também o meu discurso. Como artista, o tipo de recurso gráfico, a escolha da elementos simbólicos que uso na ilustração ou HQ já são a minha opinião, já levam o meu olhar de autor. Isso me parece inevitável. Talvez a maior diferença entre estes dois tipos de trabalho é que no trabalho não encomendado você se pauta e você é seu próprio editor. Isso não é necessariamente vantajoso, pois muitas vezes a troca com o editor traz boas reflexões, obriga a dialogar com outras referências, te coloca em movimento. Acho que esse é um exercício importante para qualquer artista. Gosto de discutir com o editor sobre as questões estéticas, políticas, simbólicas do texto. O que não topo é trabalhar com editores que não estejam abertos ao diálogo. Felizmente, tive poucas experiências desse tipo.

KF – Em algumas de suas histórias, o protagonista é alguém com uma tarefa interminável e extremamente lenta e detalhada, como o consertador de coisas miúdas, o pintor que inscrevia as histórias dos habitantes da cidade de Perdão em um muro e o torneiro mecânico que decidiu reativar um engenho velho. Você se sente assim também – um autor com uma tarefa interminável, determinado a cumpri-la, mesmo que não leve a lugar algum? Neste caso, qual é a sua tarefa?
JL – Acho que determinação não é a melhor palavra para dizer da minha instigação para a arte. Talvez, compromisso político, compromisso de classe, já que não se pode mais falar de ódio de classe, e já que também não dá mais pra falar de marxismo. Tenho consciência das minhas intenções no meu fazer artístico, não sou ingênuo e gostaria até de ser mais “perigoso” como diz o amigo e capoeirista Joab. Meus desenhos não parecem ter esse conteúdo político explícito, mas acredito que sutis subversões são o meu jeito de ser político. Subverter, por exemplo, a supervalorização do virtuosismo na arte, que qualifica e hierarquiza, é uma maneira de discutir a elitização no fazer artístico. Numa sociedade que supervaloriza o rigor técnico como valor estético máximo, mesmo sabendo que isso privilegia as classes dominantes, as elites intelectuais e a classe média, porque é esta elite que pode “perder” seu tempo numa escola exercitando exaustivamente a técnica. Por isso, faço uso do meu desconhecimento e minha “limitação técnica” (pois não sou virtuoso) para contestar esta visão elitista de arte. O caminho da síntese, da simplicidade, da economia de recursos gráficos hoje passou a ser uma escolha pra mim, principalmente por entender a função e força política dessa escolha. O mesmo se dá com o excesso de recursos digitais e toda parafernália high-tech. Quando faço uma arte da sutileza, do silêncio, da delicadeza, pretendo contestar esta visão “espetaculosa” e pirotécnica de arte. Paralela a essa dimensão política, existe mesmo uma tarefa interminável, que é a da busca do auto-conhecimento, usando a metáfora do desgaste próprio das coisas na vivência; do constante refazer e da certeza dos desgastes futuros. Percebo que a necessidade recorrente de consertar, fazer a manutenção, cria uma confiança e esperança de que esse este fazer se torne tão orgânico que chegue a te dar prazer, o prazer de se perceber aprendendo e aceitando esta condição.

KF – O que não pode faltar na rotina e no ambiente de trabalho de João Lin?
JL – Travo uma luta diária com a organização no meu atelier e ainda nem empatei o jogo. Então, posso dizer que não pode faltar organização; não pode faltar um cheirinho de alfazema; não pode faltar muita luz, pois sou meio cego; não pode faltar música; não pode faltar internet; não pode faltar papel de vários tipos; e não pode faltar instigação para o trabalho e ideias pra gastar.

KF – Você e Christiano Mascaro são editores da revista Ragu, que reúne diferentes traços autorais. A revista começou pequena, um fanzine em Recife, e no sétimo número, em 2009, surgiu como um livro volumoso, com 33 colaboradores. Quantos exemplares de toda a história da revista, no total, estão circulando por aí? Como está a continuidade do projeto?
JL – A Ragu, editora independente, publicou oito edições da revista Ragu, duas edições da Domínio Público – Literatura em Quadrinhos (selo “Ragu Livro”), duas caixas “Ragu Cordel” (a primeira com 6 livretos e a segunda com 12 livretos) e a coleção “Olho de bolso” com 12 livretos (selo “Raguzine”) em parceria com a editora Livrinho de Papel Finíssimo. Circulam mais ou menos vinte mil exemplares, somando todas as tiragens, sem incluir a “Domínio público volume 1”, que foi aprovada no edital público do Ministério da Educação/PNBE, com uma tiragem de vinte mil exemplares para bibliotecas escolares. É importante falar de números, mas uma coisa que nos instiga na Ragu é que ela é um espaço de experimentação da linguagem, e nos permitir elaborar e disseminar a nossa concepção de quadrinhos. Nosso exercício na edição é o de compor com o conjunto de hqs e autores uma reflexão sobre a produção de quadrinhos independente. Claro que isso não é privilégio nosso, nós colaboramos, com nossa visão, para uma rede de publicações independentes de quadrinhos que também está publicando com essa mesma perspectiva. Incluir autores da Bolívia, Peru, Argentina, Cuba e Espanha deixa claro essa intenção de dar nossa colaboração nesse novo cenário dos quadrinhos no Brasil e especialmente na América do Sul, que tem uma produção independente muito rica e pulsante. Continuaremos publicando através da editora Ragu, mas nesse momento estamos mesmo refletindo sobre novos produtos. Queremos investir em novos formatos, não esquecendo das experiências que deram certo. Hoje, estamos pensando mais em desenvolver a sustentabilidade da Ragu. Este não foi nosso foco nesses onze anos, por isso as nossa publicações necessitaram na maioria das vezes de recursos públicos ou parcerias com outras editoras. Ainda não sabemos quando faremos a Ragu 8.

KF – O projeto Ragu Cordel usa um conceito bem ampliado de cordel. De onde veio essa ideia?
JL – O que nos interessa na Ragu Cordel é poder explorar o rico e amplo universo da poesia popular nordestina, e como o cordel é talvez a expressão mais popular dentre as outras facetas da nossa poesia, decidimos que a expressão “cordel” seria o grande guarda-chuva para apresentarmos a diversidade e riqueza desse universo. Não nos limitamos estritamente a forma (versificação, ritmo, categorias…) do cordel, mas fizemos o exercício de flexibilizar esses limites para criar diálogos com o universo dos quadrinhos e sua gramática particular. No final, gostamos do samba que deu.

KF – Indica aí: cinco livros entre os favoritos da estante de João Lin.
JL – Difícil escolher apenas cinco… mas vamos lá: O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell; A delicadeza, de Denilson Lopes; Epiléptico, de David B; Formas de Pensar o Desenho, de Edith Derdick; Haikais de Bashô – tradução de Olga Savary; Pequeno Dicionário de Percevejos, de Nelson de Oliveira; Contos fantásticos, de Guy de Maupassant; e Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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