perturbado e perturbador / entrevista de investigação #4: flavio braga

Se você gosta de romances com bastante ação, sexo, bastidores do poder, referências históricas reais e uma dosezinha de adrenalina, e especialmente se você tem algum interesse na nossa condição política de América Latina, conheça logo A Cabeça de Hugo Chávez (Record, 2011).

Mas não comece a ler pelo prefácio de Luiz Costa Lima, senão perde a graça. Leia o prefácio só depois, depois de tudo… Aos prefácios, prefiro as capas, essas sim quase sempre potenciais boas prévias da narrativa.

A capa de A Cabeça antecipa o aspecto revolucionário do enredo, enquanto o texto de Costa Lima é tão exato em sua descrição que, ao se começar por ela, corre-se o risco de perder o sabor de um dos principais efeitos da narrativa: o labirinto criado pela polifonia de situações, personagens e épocas, desde Símon Bolívar (1810) até Hugo Chávez (2007).

Fruto de trinta anos de trabalho, este é o décimo oitavo livro do produtivo escritor, dramaturgo e cineasta Flávio Braga, que já tem pelo menos mais dois romances prontos – um deles, romance-reportagem, vai ser lançado ainda em 2012..!

Mas – e cadê o link para o blog de Braga? Não tem! Braga contraria toda a lógica da “impossibilidade de Pynchon” (tomo a expressão de outro autor, o ótimo Antônio Xerxenesky). Braga não bloga, não tuíta, não faz quaisquer esforços virtuais/sociais e, “pior”, tem menos de cem amigos no Facebook.

(“Pior seria se pior fosse”, diria o sábio pescador Luís Cuiúba, personagem de crônicas de João Ubaldo Ribeiro. Então, pior é: se um fã porventura digitar “Flavio Braga” no google ou no youtube, a lista inicial de vídeos prioriza hits de um cantor homônimo, ou da apresentadora Ana Maria Braga, e só lá pelas tantas, se for muitíssimo fã, é que descobre seu programa de entrevistas, o Tubotexto.)

Mas – e daí, se os livros de Braga são uma delícia de ler?

São quinze obras de ficção e três ensaios. A maioria foi lançada pela Record ou pela Best Seller, duas grandes editoras brasileiras. Boa parte é literatura erótica – dessa leva, ainda não li nada, confesso. Mas seus títulos estão em muitas livrarias (é raro não encontrar algo de Flávio Braga nas prateleiras das principais lojas), e um de seus livros, Sade em Sodoma, foi adaptado e virou peça de teatro estrelada por atriz global e preparada em um workshop de Gerald Thomas.

Produzir, produzir, produzir – eis o lema de Flávio Braga. O tempo que não perde na internet, ele passa escrevendo. E escreve muitas vezes ao lado da esposa, Regina Navarro Lins – sua parceira em um de seus temas literários preferidos: sexo e relacionamento.

Agora que o autor já está apresentado aos que, porventura, não o conheciam, permitam-me abordar um segundo aspecto pitoresco da trajetória de Braga: a aproximação com a obra do chileno Roberto Bolaño.

E o que Braga e Bolaño tem a ver, além de terem nascido no mesmo ano, 1953? Bem, arrisco: ambos começaram a publicar prosa já adultos (Braga, aos 46 anos de idade; Bolaño, especialmente a partir dos 43); ambos têm algo de beatniks (“Permaneceremos em Quina até a polícia chegar… / Podres de cansaço e Steinhegers, amanheceremos instáveis…“, trecho de poesia de Braga em homenagem a Porto Alegre).

E os dois encontraram formatos perturbadores para escrever ficção, e nela encaixar alguns de seus temas favoritos, entre eles poder, sexo, política.

Em o O Olhar Cingido (Record, 2010), romance imediatamente anterior ao Cabeça, o que fala é a ação objetiva dos personagens. Ali, os acontecimentos da trama são mais eloquentes do que fluxos de consciência e depoimentos em primeira pessoa. Diálogos em ritmo real, cenários bem descritos, tudo ajuda a fazer com que a temática dos bastidores da televisão popular brasileira (ou seja: do poder da elite econômica, política e da alta bandidagem sobre as imagens/as versões das histórias que chegam à maioria da população brasileira), tornam O Olhar Cingido um thriller de tirar o fôlego.

É desses livros de se levar consigo até para tomar banho, se for preciso, antes de chegar ao ponto final. E, quando o ponto final vem, você quer mais.

Bueno, vamos à entrevista.

Perturbei o sossego desse autor recluso em uma manhã de trabalho. Encontrei-o receptivo e de ótimo humor – duas de suas marcas pessoais, aliás, pelo pouco que sei. Depois, notei que ele já tinha estado no Programa do Jô, na TV Senado e outros espaços nobres ou não tão nobres da televisão brasileira.

Quer dizer: não se nega a falar de sua obra, só não fica fazendo isso o tempo todo. Precisa ser provocado.

Como eu tinha perguntas sobre dois livros, e não apenas um, nosso papo acabou se tornando um documento, ou um presente aos fãs de Flávio Braga – aqueles que, depois do ponto final, o procuram no Google e não o acham. E creio que seremos cada vez mais leitores nessa condição, já que um romance-reportagem está para chegar, O Olhar Cingido está roteirizado para cinema e A Cabeça de Hugo Chávez, por sua vez, deve ser lançado ainda este ano na Argentina e na Venezuela.

*

Katherine Funke – “A Cabeça de Hugo Chávez” contém mesmo aspectos autobiográficos, como informa a orelha? Quais? Seria a trajetória do personagem Felipe, autor de peça de teatro censurada pela ditadura e diretor do Pasquim em Porto Alegre?
Flavio Braga – É. O Felipe representa minhas lembranças dos anos 1970 e 1980. Anos duros uns, saborosos outros. Trabalhei como editor e como dramaturgo, também com cinema de curta-metragem. Ganhei festivais. O documentário do Gudin que aparece no livro foi meu segundo filme no Rio, aonde cheguei em 79. Em 83 voltei ao Rio Grande do Sul para dirigir o Pasquim e retornei definitivamente em 88.

KF – Você passou trinta anos reunindo elementos para esse livro. Foi uma pesquisa sistemática, focada e já com produção de texto simultânea, ou a produção do texto aconteceu em uma segunda etapa do trabalho?
FB – Entre 75 e 84 escrevi uma série de contos políticos que, reunidos, chamei de Politeama Alhambrês. Eram narrativas na primeira pessoa sobre questões latino-americanas. O Moacyr Scliar fez a apresentação. Mas não enviei a nenhuma editora, não sei bem o porquê. Alguns contos viraram curtas bem sucedidos. Conversa Limite participou de várias mostras internacionais e ganhou um festival de cinema que existia em Porto Alegre, na época. Mas o livro inteiro ficou na gaveta. No início dos anos 2000 fiquei amigo de um profissional de marketing que havia trabalhado com Hugo Chávez e ele me falou muito do processo eleitoral da Venezuela. Aquilo reacendeu o projeto iniciado décadas antes. Foi quando resolvi misturar história, memória e ficção. Devo acrescentar que a leitura do História, ficção, literatura de Luiz Costa Lima me ajudou a decidir por esse formato. Nessa obra brilhante, o professor Costa Lima demonstra como finas películas de memória e imaginação separam a existência real da ficcional.

KF – Do ponto de vista narrativo, você optou por narradores que contam tudo de seu ponto de vista, em primeira pessoa o tempo todo – tanto dos personagens ficcionais, quanto de Símon Bolivar, Che Guevara, Carlos Marighella, Leonel Brizola. Só não entrou na cabeça de Hugo Chávez, quero dizer, não há um capítulo narrado apenas por ele. Por quê?
FB – Todos os personagens históricos estão amparados em documentação pessoal ou em registros de especialistas da área, historiadores, jornalistas, memorialistas. Eu não criei nada, apenas dei forma narrativa. Eu não tinha nada do Chávez que ajudasse a montar aquele quebra-cabeças e que fosse documentado. Chávez tem a minha idade, ele é tão resultado do processo que descrevo quanto eu.

KF – “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, também é um romance em que depoimentos de diferentes personagens da trama vão construindo o enredo. Bolaño é uma de suas influências? Fale-nos um pouco mais delas…
FB – Pois é, Kathi, só conheci Bolaño agora, mas acho que eu e ele tivemos alguns processos semelhantes em nossa formação literária. Ele é de 1953 como eu e tem algumas obsessões como as minhas, política, sexo… Tenho pensado muito sobre isso sem chegar a conclusões. Eu li vários dele. O primeiro foi Os Detetives Selvagens, depois Noturno do Chile, Putas Assassinas e 2666. Li também um livro de ensaios, Entre ParéntesisNa verdade, quando comecei a ler Bolaño fiquei perturbado com certas semelhanças… Eu também pesquiso muito a direita radical, como ele. Se vida tiver, vou escrever um longo romance sobre a TFP (Tradição, Família e Propriedade).

KF – Sempre me admiro diante de autores produtivos como você. Tantos livros, mais o romance em co-autoria com Luis Daltro, e outros tantos específicos sobre o tema de sexo e relacionamento em co-autoria com sua mulher, Regina Navarro Lins. O que o impulsiona tanto para a atividade da escrita – e como você mantém o pique?
FB – Tenho dezoito títulos publicados, sendo quinze de ficção e três de ensaios. Nesse ano sai um romance-reportagem chamado Stalking, a patologia do apego. Eu comecei a publicar tarde, aos 46 anos. Antes apareceram apenas contos em revistas e jornais ou textos dramáticos. Escrevi mais de trinta peças e oito foram montadas. Mas não sei o que me impulsiona para a escrita. Sempre acreditei que a literatura era feita pelo nosso inconsciente. Mas o desenvolvimento da teoria literária, e volto novamente ao professor Costa Lima, trabalha com a idéia de uma segunda consciência que age em nosso inconsciente. Ou seja, os escritores hospedam uma segunda personalidade que, essa sim, cria. Isso explica porque autores com uma péssima relação com a realidade tenham produzido obras tão grandiosas e coerentes, como Louis Ferdinand Cèline, por exemplo. Ou Nelson Rodrigues.

KF – Ao mesmo tempo em que é muito produtivo, não encontramos facilmente textos/vídeos/ artigos em que você reflita sobre a própria produção. Você não é, também, como tantos escritores contemporâneos que vão compartilhando pensamentos via Twitter ou Facebook. Para o leitor interessado em saber mais sobre a cabeça de Flávio Braga, é preciso se aquietar e esperar. Qual o motivo desses silêncios? Pensa em fazer esse tipo de reflexão algum dia?
FB – Eu luto constantemente contra certa inclinação à solidão. Tenho um romance pronto chamado O pai só, que é sobre meu pai que sofria desse mal. Por outro lado, me confesso muito em meus livros. O fato de não ter uma vida social muito intensa aumenta minha produtividade. Consigo trabalhar até dez horas por dia em três turnos, o que em produção de texto é muito.

KF – “O olhar cingido” tem violência, sexo, política, algo de reality show e de novela.  É um livro de ritmo rápido, com muito diálogo e ação. Você já tinha essa meta ao iniciá-lo, ou o que lemos com tanta avidez é resultado de um aprimoramento constante? 
FB – Esse livro partiu de conversas que tive com uma amiga minha que pirou e descrevia relações imaginárias com nomes de famosos da TV. O personagem surgiu daí, mas criou vida própria. Trabalhei a linguagem de roteiro cinematográfico, que me pareceu adequada ao tema. Deve virar filme. Já está roteirizado para cinema.

KF – O título é uma boa sacada – a gente acha que lê “fingido”, e está escrito “cingido” – uma referência, suponho, às câmeras espiãs que o programa de TV do protagonista instala para investigar a vida de cidadãos comuns e famosos. É isso mesmo, ou há outra explicação? O título surgiu junto com a ideia do livro? Conte como foi. 
FB – É isso, mas esse título só surgiu muito tempo depois que escrevi o livro. O título de trabalho era O Inocente, mas já havia uma obra com esse nome.

KF – Quem são seus autores preferidos? Liste cinco títulos, um de cada, que você levaria para uma viagem de um mês a um país sem televisão. E, por favor, diga por quê…
FB – Sou um leitor sedento por Wladimir Nabokov. Li o que saiu em português. Eu levaria para a tal viagem Fogo Pálido. São cinco títulos… Bem, o segundo poderia ser Joseph Conrad e o seu No coração das trevas. De Virgínia Woolf eu levaria O Farol. Um brasileiro: São Bernardo, do Graciliano Ramos. O último pode ser A maçã no escuro, da Clarice Lispector. Por quê? São todos magníficos!!

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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