para ser único e muitos ao mesmo tempo / entrevista de investigação #3: reginaldo pujol filho

A capa do investigado de hoje é premiada – a arte de Samir Machado de Machado recebeu as merecidas honras no Prêmio Açorianos de Literatura de 2011, da prefeitura de Porto Alegre.

Enquanto muitos designers talvez queiram ser Samir, sei lá, de minha parte eu admito: um dia ainda quero ser Reginaldo Pujol Filho.

É que este escritor gaúcho não tem medo de suas influências. Caça-as. Vai onde estiverem, infiltra-se no pensamento delas, tenta saber como funcionam suas máquinas de pensar. Domina-as. Deixa-se dominar. Para ser único, estuda os outros. Entra mesmo na cabeça deles, analisa os motores, desmonta as peças para descobrir outros reencaixes.

Tem é coragem, isso sim.

E eis que é um assunto pelo qual Pujol se tornou obcecado, entre uma cerveja e outra: que rosto é o meu, diante de tantos outros?, se pergunta, e uma voz interior o provoca, insistente: mas, peraí – como é o rosto do outros, diante do meu? O tema toma-lhe tanto tempo e espaço na cabeça que o moço foi obrigado a auto-conceder-se uma Bolsa Reginaldo Pujol Filho de Criação Literária.

Mandou-se para Lisboa, onde fica até o meio do ano neste curso de pós-graduação em Artes da Escrita da Universidade Nova de Lisboa. A grade de aulas faz qualquer escritor mais ou menos cabeçudo ficar com lágrima nos olhos de felicidade (& inveja & vontade de estar lá).

Lá, Pujol tem aulas com o aclamado Gonçalo M. Tavares, o que quer dizer ouvir do professor “estou a pensar com vocês” – o que quer dizer pensar junto com Gonçalo M. Tavares! Tem um ótimo artigo de Pujol publicado esta semana no site do Instituto Moreira Salles sobre o tema.

Pois. Corajoso, o moço, mesmo. Não só leu a maior parte da obra de Gonçalo M. Tavares, não só foi ter com ele pessoalmente, não só se dispôs a se expôr diretamente à máquina de pensar de uma de suas influências mais declaradas, como brincou de imitá-lo. Tavares é um dos dez homenageados de Quero Ser Reginaldo Pujol Filho (Não Editora, 2010), o segundo livro de Pujol.

Em Quero Ser, o autor gaúcho entra no cérebro de seus escritores favoritos – suas influências – e narra as histórias a partir desses outros olhares, rostos, estilos. Genial, hã? Em minha pouca, mas intensa experiência literária, nunca vi antes um livro dedicado apenas à arte de ser original copiando descaradamente.

Tem lá o “puês” do Veríssimo, o quixotismo de Cervantes, os mistérios de Mia Couto… E tem o humor único de Pujol, o estilo Pujol de fazer humor de várias formas. Como? Não sei descrever, peçam aos críticos, mas contém uma maluquice só (veja o vídeo do conto “Querido U” para ser rapidamente apresentado, caso não conheça ainda).

Já nas duas epígrafes de Quero Ser, o autor homenageia a arte da cópia repetida até o encontro da originalidade. “Imitei todos os estilos na esperança de descobrir a chave do segredo torturante da arte de escrever”, confessa ali Henry Miller. A citação de Pablo Picasso tem ainda mais força:

Você deveria constantemente tentar pintar como outra pessoa. Acontece que você não consegue! Você gostaria. Você tenta. Mas acaba ficando uma droga… e é exatamente neste momento em que você faz uma droga que você é você mesmo.

Não sou versada em todos os dez autores mais influentes para Pujol, é verdade, o que me impede uma explicação teórica literária mais profunda. De todo modo, críticos, estudiosos, literatos, já levaram este trabalho analítico a termo. Da minha parte, que só conheço cinco dos homenageados, noto que um dos grandes méritos do livro é que a gente nem sente se o esforço realizado por Pujol provocou suares angustiados no moço.

O escritor pode ter se diluído em dez em busca desse resultado, mas a gente não sofre nem um pouquinho. Ao contrário…

Há algumas semanas, procurei Pujol para uma entrevista sobre a experiência do livro. Apesar de estar em outras terras, outros ares, ele topou responder algumas perguntas entre uma tarde na livraria Pó dos Livros, outra cerveja e as horas mágicas na pós.

Humilde, o gaúcho que trata o leitor sempre como uma possibilidade remota – chamando-nos sempre de “Suposto” em seu blog pessoal – se revelou generoso e detalhista nas respostas. Dá até umas dicas de leitura.

Não sei ainda como é a máquina de pensar de Reginaldo Pujol Filho. Só sei que solta faísca.

*

Katherine Funke – Quero Ser Reginaldo Pujol Filho é um livro inteligente – uma proposta inédita na literatura brasileira, diga-se de passagem – mas sobretudo divertido. Era esse seu propósito desde o início? É assim que você vê a função da literatura, já que todos os contos de seu primeiro livro, O Azar do Personagem, também nos divertem?
Reginaldo Pujol Filho – Brigado pelo inteligente, inédito e divertido. Mas, assim, não acredito que literatura tenha uma função, sabe? Acho que literatura ou qualquer outra forma de arte, na nascente, na hora de fazer, não tem que ter função, objetivo, razão de ser. Por isso não acho que literatura tem que ser necessariamente divertida, engraçada ou bem humorada e gosto e leio muita coisa que não é por aí. Mas, na hora de fazer, a coisa muda de figura. Não sei se por algumas influências da vida, não sei se pelo meu jeito de olhar as coisas, não sei se porque me incomoda essa coisa da grande literatura sisuda (embora Cervantes, Machado e outros desmintam isso), digo, uma roupagem séria da grande literatura, não sei. Mas gosto de escrever com humor e sempre me pareceu um desafio fazer algo que eu ache bom e que seja ao mesmo tempo bem humorado. Desde os gregos que se leva mais a sério a tragédia, não é? Então tem muita gente fazendo tragédia, sendo sério e fazendo isso com gigantesca qualidade. Eu desde que comecei a escrever, pelo que me lembro, preferi escrever coisas com mais diversão, às vezes sarcasmo, às vezes ironia, seja nos temas, na forma ou na abordagem. Mas não é uma bandeira: literatura só com humor. É o que eu faço hoje, o que me desafia hoje, mas vai saber o que eu vou fazer daqui pra frente. Ficar sempre no mesmo, mesmo que seja humor, pode ser bem sem graça. Até o que eu estou escrevendo no momento me parece menos engraçado no sentido de humorístico e talvez seja mais, não sei se irônico, mas algo que não provoca risada. Talvez um sorriso.

KF – Só a verdade, se possível, por favor: você não teve mesmo nenhuma angústia da influência – e nenhum outro tipo de angústia – ao fazer o livro?
PF – Acho que eu tive todas. Os primeiros contos, enquanto a coisa não era tão evidente, talvez não tenham sido tão angustiantes porque foram contos que surgiram. Mas quando a coisa virou projeto e o projeto foi tomando jeito de livro, aí foi ficando dureza. Porque era assim: fechava um conto e pensava na listinha mental que eu tinha feito, tinha que escolher uma parada complica pra enfrentar. Meio Street Fighter, qual o próximo round? E aí, puxa, agora é eu e tu, Machado, vamos ver o que sai daqui? Cervantes, vem vamos fazer um conto? Mesmo o Verissimo que, a princípio eu tinha muito claro por onde queria pegar, o Analista de Bagé, texto que eu li quando tinha 11, 12 anos e tinha muito claro que era o trauma inicial dessa minha questão de identidade, foi muito complicado. Mas ao mesmo tempo sensacional. Porque eu reli todos os autores. Peguei livros preferidos – e no caso de alguns, até não lidos – e passei muito tempo fazendo uma leitura cuidadosa de cada um. Isso é muito bom. Só que ao mesmo tempo da pra falar de uma angústia da influência ao contrário. Porque em certo sentido a angústia da influência é querer e não conseguir escapar daquele “poeta-forte”, aquele totem que tá sempre sobre a página. E no meu caso, talvez um caso gravíssimo de angústia da influência, minha angústia era, mais ou menos, tentando ser o mais sincero possível (mas acho que sempre mentindo), era a angústia de ver onde é que aquele autor tava no meu texto e abusar daquilo, escancarar aquilo e ver o que acontecia. Então além da presença dos ídolos, tinha essa investigação que, muitas vezes, era bem angustiante.

KF – Mas qual foi o autor mais difícil de homenagear? Por quê?
PF – O mais difícil é difícil dizer. Acho o Gonçalo muito difícil porque tinha uma coisa muito pessoal em relação a um livro muito específico [O Senhor Henri], que é o primeiro livro que eu li dele e que nem tanta gente leu. Então escrevi sempre achando que só eu conseguiria ler aquele texto. O do Mia Couto, por ser algo muito diferente do que costumeiramente faço e porque era uma história esvoaçada, da qual eu só ia dar umas pistas, e por causa do jeito de escrever, misturando frases dele com palavras que eu inventei, pela pesquisa, acho que, no mínimo, foi o mais demorado. Cervantes e Machado, pelo respeito ou medo dos mais velhos e, com isso, quero dizer que tanto já se disse, já se fez, já se produziu em cima deles, o que fazer? Isso era complicado e, no caso do Machado, ainda tomei uma decisão: fugir dos olhos de ressaca e das ironias machadianas (o que muita gente me cobrou depois de ler o conto). Mas se eu fizesse isso, seria um Quero ser os outros, o que os outros leram. E eu lembro bem de, nas primeiras vezes que li Machado, até por ser em época de colégio, em que a minha sensibilidade e capacidade irônica não eram lá essas coisas, lembro de ter me divertido demais com o narrador dele. Então eu queria trabalhar isso. E o Veríssimo também. Pô, fazer humor com o melhor do humor é pedir pra tomar vaia. Mas tentei. O Calvino foi uma dificuldade diferente: acho que ele é tão múltiplo, tão variado, que eu tinha muitas ideias de contos pra esse conto, e não sabia por onde fazer, parecia que se eu escolhesse uma ia abrir mão do que eu queria de fato escrever, foi difícil isso também.

KF – Quando a gente vai poder ler as respostas de Altair Martins para seu conto em que um personagem o aprisiona e o obriga a escrever? Já está publicado em algum lugar? Essa iniciativa dele te surpreendeu?
PF – Ler eu não sei. Lembro de ter falado com alguém sobre publicar isso em algum lugar, mas não me lembro mais onde nem com quem. Tem um registro em vídeo, de uma leitura que eu e ele fizemos lá na Palavraria, em Porto Alegre. Não tem lá essas qualidades, inclusive porque os leitores (eu e ele) ríamos muito. Mas dá pra ter uma ideia. E se isso me surpreendeu? Demais. Quer dizer, pensando no cara legal que o Altair é, não deveria me surpreender, mas, dentro do contexto, não tinha como não. Eu tinha escrito o conto e umas duas, três pessoas, pra quem eu mostrei, tiveram a mesma reação “Pô, legal. Mas forte, pesado, hein? Será que o Altair não vai se ofender?”. Na primeira, não dei bola, na segunda fiquei assim, na terceira, quando disseram “ele tem família”, pensei em desistir daquele conto. Mas aí, antes disso, mandei pro Altair, expliquei o livro, a situação, e disse que, se ele achasse algo ofensivo, não publicava. E ele demorou, demorou, demorou pra responder. E eu já tinha certeza: pronto, tá puto comigo, não vai nem responder ou tá se acalmando. Vou fazer outro conto. Mas aí chega a resposta dele, dizendo que tinha adorado, que tava demais e que tinha feito algumas sugestões “em vermelho, no arquivo”. Abri o arquivo feliz da vida. Além de gostar do texto, ainda algumas sugestões. Comecei a ler megaconcentrado, prestando atenção, esperando conselhos sérios, literários e literatos, e aí leio um xingamento em vermelho. Depois outro. Depois “a tua mãe”. E logo o Altair, que gosta de vir com uns papos de que não sabe fazer humor.

KF – Que raios você está fazendo em Portugal? Escrever faz parte da rotina, assim como descobrir boas cervejas para seu próprio deleite, como lemos sedentos no Loira de Bigodes?
PF – Tô aqui aproveitando as benesses da bolsa Reginaldo Pujol Filho de criação e produção literária. Na verdade, estou vivendo um ano que eu sempre quis viver. Tô fazendo uma pós-graduação chamada Artes da Escrita, que, ao mesmo tempo em que me dá um pouco mais de substância teórica, me põe em aulas sobre conto, romance, teatro, cinema, com gente como o Gonçalo M. Tavares e o Mário de Carvalho. Mas, fora isso, faz parte da bolsa que eu me dei, além de estudar, escrever e ler, que eram coisas que no Brasil eu tinha que fazer no tempo que sobrava. Aqui não. Tenho trabalhado num livro e escrito alguma coisa de ensaio à luz do dia, durante a semana, como eu nunca tinha feito na minha vida. Ah, sim, e também tenho feito essa profunda e científica investigação no universo da cerveja lusitana e, por que não, europeia. Conteúdo com o qual abasteço o Loiras de Bigodes. Mas, basicamente é isso. E também tô, claro, sentindo de perto esse outro lado do oceano do português, que era uma coisa que já mexia comigo, ao ponto de eu fazer o Desacordo Ortográfico. Tem essa parte antropológico-linguística também.

KF – O que tem lido de melhor da literatura contemporânea?
PF – Bah, vamos lá. Uma coisa que é complicada é este recorte “contemporâneo”. Quando que começa e quando que acaba isso, né? E a outra complicação é tenho uma leitura bem irregular: não consumo desenfreadamente o cânone, nem as novidades. Tento abraçar tudo isso, mesmo sabendo que é impossível. Tá, mas vou tentar responder: o Gonçalo M. Tavares sem dúvida está nessa lista e, se eu for citar livros, putz, mas a série O Bairro, Uma Viagem à Índia, Aprender a Rezar na Era da Técnica, Matteo Perde o Emprego e por aí vai. Tem um mexicano, o Davi Toscana, que gosto muito do que li dele (Santa Maria do Circo e O Exército Luminoso). Li faz um tempo, mas vale registrar: os argentinos Rodrigo Fresan (Jardins de Kensington) e Alan Pauls (O Passado). O Coetzee, que, embora Nobel e de barba branca, não se acomoda e, bom, acho que isso faz ele mais contemporâneo que muito jovem. Johnatan Safran Foer, os poetas Diego Grando e Fabrício Corsaletti, os contos do Carrascoza, Maria Valéria Rezende, André Laurentino (que só lançou um, mas muito bom, livro), o Altair Martins. Bom, acho que tá bem assim, né?

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Autor: katherinefunke

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