delírios de um autor inventado / [entrevista de investigação #2: luiz bras]

A carta roubada pode estar em cima da escrivaninha, já avisava Edgar Allan Poe. Óbvio, visível, direto. Acredito que vale para tudo. O que está na cara pode se revelar o elemento mais difícil de se ver. A investigação de um livro, portanto, deve partir da capa.

Ahã, pois aí está a de “Paraíso Líquido, Luiz Bras” (Terracota, 2010), o mote dessa segunda entrevista de investigação, parte da série iniciada semana passada neste blog.

O título desse jeito, em um itálico invertido, as letras deitadas para a esquerda, rebeldes, à frente de uma ilustração de dar nó em cabeça de psicanalista…? Sensação de deja-vú. A capa se parece com a de Muitas Peles (Terracota, 2011), coletânea de ensaios onde Luiz Bras anuncia sua paixão pela ficção científica.

Mas Luiz Bras é só um nome desenhado na capa de um livro de dar nó em cabeça de psicanalista, ou alguém de carne e osso? Decido investigar mais. Afinal, assim como acontece em contos como “Iniciação”, de Caio Fernando Abreu – que tem bons toques de ficção científica –, as treze narrativas de Paraíso Líquido nos fazem desconfiar da existência factual de tudo: do lugar onde estamos, da nossa pele, da identidade do autor…

E eis que de repente a gente descobre que é um fato: esse tal de Luiz Bras é mesmo um autor inventado.

Opa! Muita gente já sabe, mas para mim foi uma novidade quando descobri, no meio do ano passado. Até então, eu achava que Bras era uma “pessoa de verdade”, um colaborador bacana do Jornal Rascunho, que havia compartilhado em sua coluna os pormenores da fabricação de seu romance Sozinho no Deserto Extremo (que vai sair logo – pela editora Prumo, o braço paulistano da Rocco).

Sabia também da sua faceta ensaísta e do talento para produzir livros infantis e juvenis. Desde 2004, ele lançou cinco obras do gênero infanto-juvenil individualmente, e mais outras quinze como co-autor (quatorze delas em parceira com Tereza Yamashita). Os Sons de Salvador (Callis, 2007), por exemplo, eu já tinha saboreado aqui na Bahia. Mas, na época, ainda achava que Bras era apenas Bras.

E só sabia que, além de ter escolhido nascer em Cobra Norato, ele colecionava zigurates. Mas tem mais: Luiz Bras é o pseudônimo, ou novo ânimo, de um outro escritor, doutor em Letras pela Usp, autor de um romance vencedor do Prêmio Casa de Las Américas 2011 (Poeira: demônios e maldições), entre vários outros prêmios. Quem inventou Bras já gostava, e muito, de ficção científica. Ah, tá explicado! Que figura, esse Nelson-Luiz-Bras-Oliveira…!

E como funciona isso de ter um heterônimo, um novo eu? Gastei dias e dias imaginando; trata-se de um passatempo saboroso. Uma vez conhecedora do Paraíso, decido acalmar meus próprios delírios aceitando o convite feito no posfácio do livro: escrever para o escritor.

Mando um email para o endereço indicado ao final do Paraíso Líquido – e ele me responde quase imediatamente. Existe, portanto? Ou é resposta automática? Seria um ciborgue? Humano, ou não, tem na sua genética algo de gentil, de atencioso. Diz que basta perguntar.

Bras manda brasa. Não perde tempo. Antecipa. Aceita o papo, mas alerta que Paraíso Líquido pode ser uma leitura imprópria para grávidas. Incrível: como sabe a meu respeito? Mandou um dos seus personagens me vigiar? Implantou nanocâmeras nas páginas do meu exemplar do Paraíso? Entrou no meu cérebro por meio das palavras e conhece meus pensamentos em tempo real? Seria ele um… pós-humano? Um ser onipresente? Nem só psicanalistas estão sujeitos ao nó na cabeça anunciado pela capa…

Respiro. Volto à Terra e retruco: não, Bras, não faz mal, ando lendo uns livros estranhos mesmo – Bolaño, Poe, Stigger, Eisner… O inventado ri do outro lado tela. E me pergunta o que vem depois: Stephen King?

Ri mais.

Ri? Eu não vi. Ouvi? Pode ter sido alucinação auditiva. Não sei. Ainda estou sob o impacto da leitura. Ainda tenho comigo uma sensação de não ter acordado de uma esfera onde o deja-vú convive com outros resquícios de memória muito apagados. Ou meu cérebro apresenta falhas no setor do hipocampo, ou esse autor inventado tem uma estratégia bem traçada para criar impacto na mente alheia…

Com vocês, nosso papo.

*

Katherine Funke – A expressão “paraíso líquido” é ótima para definir esse estado do viver mais no virtual, no imaginário impalpável, que na dita realidade concreta. Como surgiu esse conceito, para você? De alguma forma, a obra de Zygmunt Bauman a respeito da modernidade líquida influenciou o universo criado nos contos do livro?
Luiz Bras – O adjetivo “líquido” é um dos mais fascinantes. Qualquer substância em estado líquido, seja água ou ouro, move-se de maneira sinuosa, às vezes sub-reptícia. Quem não gosta de contemplar demoradamente o movimento fractal de um rio ou do oceano? Mas Zygmunt Bauman fala negativamente da liquidez da modernidade, do amor, de tudo, porque ele não enxerga com bons olhos essa situação em que tudo muda rapidamente sem jamais se solidificar. Sua visão do futuro global é bastante apocalíptica. Mesmo concordando com ele em certos pontos, a liquidez de meu livro é outra. É a liquidez hipnótica, que faz do movimento incessante uma forma de epifania estática, de paralisia extática, contemplativa.

KF – Um éden pós-humano pinga como colírio para dentro das retinas do leitor de “Paraíso líquido”, mas o livro também pode cair como um cisco no olho, um cisco bem concreto, sólido, incômodo, que faz piscar e duvidar do que é real e do que é inventado. É um paraíso, mas também é um paraíso formado por guerras, lutas interplanetárias e sobre-humanas por sobrevivência, e renascimentos em outros estados possíveis de existência. Depois de um tempo de imersão na leitura, o leitor tem de se beliscar para verificar se não é um clone dele mesmo, por exemplo. Sendo o autor Luiz Bras uma invenção, essa intenção já fazia parte do projeto literário criado junto com ele?
LB – Gostei da expressão “éden pós-humano”. Diferente do éden bíblico, o novo éden, apesar da alta tecnologia, será análogo ao mundo que conhecemos: um território do bem e do mal. Mas “Luiz Bras”, duas palavras presas no papel ou na tela, é apenas o nome literário que designa o novo escritor no qual me tornei. A maioria dos contos da coletânea fala de manipulação genética e tecnológica. De certo modo, são narrativas sobre o presente. Hoje os engenheiros e geneticistas estão pesquisando maneiras de evitar o envelhecimento. Estão cultivando em laboratório órgãos artificiais, por exemplo. Em breve a expectativa de vida de uma pessoa de classe média será de cento e cinqüenta anos. Os cientistas também estão procurando formas de preservar e potencializar o cérebro, por meio de drogas da inteligência e próteses neurológicas. O brasileiro Miguel Nicolelis e sua equipe prometem devolver os movimentos aos paraplégicos, por meio de uma interface cérebro-máquina. Tudo isso (os avanços da medicina e da tecnologia) é fascinante. Fico imaginando a série de dilemas, conflitos e efeitos colaterais que o desejo do ser humano de melhorar artificialmente o próprio ser humano irá desencadear em breve. Matéria-prima para a literatura não vai faltar no mundo pós-humano.

KF – Você gostaria que a obra fosse classificada como um livro de contos de ficção científica? Ou empunhar essa bandeira, digamos assim, pouco importa para Bras?
LB – Gosto que a obra seja classificada como um livro de contos de ficção científica. É verdade que essa classificação não teria muito importância, se a ficção científica não sofresse tanto preconceito no Brasil. As pessoas leem má ficção científica brasileira ou estrangeira e logo dizem: ficção científica não presta, é subliteratura. Porém quando elas leem má literatura policial ou infantojuvenil ou erótica ou experimental não dizem: literatura policial (ou infantojuvenil ou erótica ou experimental) não presta, é lixo. Minha militância é a favor da boa ficção científica brasileira e estrangeira. Minha bandeira é a da boa literatura, não importando o gênero.

KF – Dos treze contos, alguns deixam um gosto de continuidade possível, como “Nuvem de cães-cavalos”, em que o protagonista parte intacto para Budapeste, embora com algumas dúvidas a mais sobre si mesmo e a realidade ao seu redor. Todas as narrativas reunidas no livro já nasceram como contos, ou houve alguma incursão em outro gênero trabalhada ao ponto de virar conto? Como você lida com essas marcas de nascença das histórias?
LB – Todas as narrativas já nasceram como contos. Menos a mais pretensiosa das treze, justamente a última, “Paraíso líquido”. Antes de começar a escrever essa narrativa (minha predileta), ainda na época das anotações, dos resumos e rascunhos, eu imaginava que seria um romance curto. Mas logo que comecei a trabalhar no texto vi que a maluquice do assunto e da linguagem poderia perder a força se a narrativa se alongasse demais. Então decidi condensar toda a trama em pelo menos um terço do número de páginas. Não queria matar meus leitores de cansaço, como costuma fazer a maioria dos ficcionistas experimentais. Nas entrelinhas desse conto longo é possível ouvir, até mais do que a cacofonia da modernidade líquida de Bauman, ecos da palestra “Regras para o parque humano”, de Peter Sloterdijk. Em “Paraíso líquido” eu extrapolo poeticamente a preocupação filosófica de Sloterdijk com a bioengenharia e a reforma genética das características humanas.

KF – O que a temática futurista dos contos de “Paraíso líquido” tem a ver com o clima apocalíptico do seu próximo livro, “Sozinho no deserto extremo”? Por que você decidiu antecipar questões relativas a esse romance no jornal Rascunho?
LB – O próximo livro é um romance sobre o último homem na Terra, depois que toda a espécie humana desapareceu. É uma narrativa sobre a solidão concreta, não a solidão figurada do homem na multidão. Esse romance pertence a um ramo da ficção científica intitulado justamente “o último homem na Terra”. O artigo publicado no Rascunho [N.E.: publicado em três partes no jornal] surgiu de minhas anotações durante a escritura do livro. É uma tradição norte-americana que me agrada bastante: comentários do autor sobre a gênese de seus trabalhos. Vejo muito isso principalmente em antologias. Antes ou depois de cada conto, o autor inclui alguns saborosos parágrafos autobiográficos, discorrendo sobre as circunstâncias que deram origem ao conto. Estou planejando transformar o artigo do Rascunho no posfácio do romance.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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