“do avesso: uma estreia certeira” [entrevista de investigação #1: renato tardivo]

O primeiro livro publicado de um escritor deve pegar o leitor de vez para garantir audiência em um segundo, em um terceiro, em um quarto. Renato Tardivo faz isso já pela capa – toda austera, em bege, branco e preto, e simétrica (feita nos estúdios da Com-Arte, editora da Usp), mas estranhamente simpática. Letras vazadas, minúsculas, de borda tímida, quase invisível, revelam o nome do autor. O título também vem  humilde, sem caixa alta, de tamanho médio, mas em tipografia negritada, absoluta: “do avesso“. Hm! Simples, direto, intrigante. O número de páginas convida: 96. Só 96. Opa!, você pensa, e sem perceber já abre e devora a orelha:

do avesso. uma estreia certeira.

(… ) Qualquer jovem escritor, sobretudo os mais afoitos – todos! -, deseja espalhar seus textos por aí. A maioria, no entanto, se esquece de tomar o cuidado de maturá-los, engordando, assim, o pântano de histórias que nascem apressadas e, como um sopro, no momento seguinte, já desaparecem na babel de escritos superficiais que não cessam de se canibalizar. (…)

Com esta coletânea de contos breves, Renato Tardivo escapa da tentação dos estreantes impacientes e começa do lado certo: avesso à ansiedade. Avesso à pseudovanguarda, à experimentação ingênua, avesso ao registro vão da violência, ao oportunismo místico, à prosa desmetaforizada, avesso à transgressão mercantil e a outros modismos do mainstream. Tardivo vai devagar, ouvindo sua voz que, se precisa de mais desafios, já se destaca pelo timbre, pela coloração, pelo vigor.”

Assim não dá! Capa intrigante, orelha convincente, com toda manha argumentativa de João Anzanello Carrascoza (autor do belo O Volume do Silêncio, entre muitos outros). Hm, hm! Certo. Aí você lê. E descobre 19 contos curtos bem trabalhados, diversos, heterogêneos, mas unidos pelo forte conceito do “avesso”: o lado de dentro dos personagens, em histórias pouco banais – muito pelo contrário.

Os avessos são alcançados no meio de redemoinhos, aventuras, neuras e outras loucuras. Em foco, ou nem tanto, os contos abordam o que pensam ou que fazem pessoas dotadas de cabeças um tanto paranóicas. Ou neuróticas, ou automatizadas, ou, ou – ah, o autor é psicólogo, tá explicado! Mas poxa – e no entanto, o uso de outras vozes narrativas, além da primeira pessoa, revela a capacidade do escritor-analista de fazer-se sumir, desaparecer letra após letra, para dar lugar às bem construídas tramas.

Aí você entende que a capa não era só uma brincadeira de design.E que esse tal de Renato Tardivo também não está de brincadeira, não. É escritor mesmo, observador do avesso, investigador do profundo, e ao mesmo tempo notório intérprete das significâncias mais incríveis de cada marca superficial ou traço de identidade.

Pena que o livro seja tão bom de ler, e tão instigante – assim, termina em uma tarde…

Mas é isso o que mais me atrai: gosto cada vez mais de livros descomplicados, de leitura fluida, que me proporcionam essa vontade de não largá-los, e na tarde seguinte reler, e reler sempre, apenas pelo deleite de ter certeza de que aquele prazer foi mesmo real.

Por isso, decidi entrevistar alguns escritores contemporâneos que me provocaram essa magnífica experiência. Confira a seguir a primeira de uma série de algumas “entrevistas de investigação”, novidade aqui deste blog. Tardivo respondeu lá de São Paulo, por email. E já aproveitou a referência à estreia certeira para anunciar o próximo livro. Espertinho!

*

Katherine Funke – “Do Avesso” tem poucos contos, mas apenas dos bons. Na orelha, João Anzanello Carrascoza elogia o fato do livro ter surgido sem ansiedade e tratar do avesso dos personagens, e não da superfície. Dá a impressão de ser como um vinho maturado por anos e anos. Afinal, quanto tempo demorou para esses contos virarem livro? Como foi o processo de seleção e edição?
Renato Tardivo – Assim que entrei na faculdade de Psicologia comecei a escrever os primeiros textos de ficção. Era uma necessidade visceral. Sempre soube que precisa melhorar muito se desejasse me tornar um escritor realmente. E persisti. Nesse início, publicava os textos no jornal do Centro Acadêmico. Um pouco depois, criei o primeiro blog. Daí vieram menções em alguns concursos e comecei e me entusiasmar. Em 2004, cheguei a reunir um conjunto (sofrível, fui notar em seguida) de textos e procurei algumas editoras. As respostas não vieram e decidi aguardar – escrever sem pressa. Comecei o mestrado em Psicologia da Arte, tornei-me professor universitário, o consultório foi crescendo e seguia escrevendo. Por dois anos seguidos, submeti contos a uma revista editada pela Com-Arte Jr. (editora jr. da ECA -USP) chamada “Originais Reprovados”. Fui selecionado nas duas ocasiões. Estava terminando o mestrado (sobre a correspondência entre o romance “Lavoura arcaica”, de Raduan Nassar, e o filme homônimo, de Luiz Fernando Carvalho) quando recebi o convite de um dos editores da revista, Bruno Tenan, que estava se formando em editoração, para publicar um livro pela Com-Arte (editora laboratório da mesma faculdade), dirigida pelo Plínio Martins Filho. Eu reuni algumas coisas que julgava publicáveis, criei alguns contos novos, trabalhei em um ou outro mais antigo – e saiu o “Do avesso”, que, vale lembrar, recebeu ilustrações muito sensíveis de Adriana Bento. O texto mais antigo (um desses retrabalhados) é de 2004; o mais recente foi escrito pouco antes de fechar o conjunto, em 2009.

KF – Como foi a repercussão de “Do Avesso”? Você espera que fosse assim, ou achava que seria bem diferente? Alguma resenha trouxe novas luzes para seu próprio modo de compreender o que escreveu?
RT – A repercussão tem sido muito acima do que eu poderia esperar. Primeiro a orelha do Carrascoza. Daí uma leitura elogiosa de Rinaldo de Fernandes (juntamente com Carrascoza, na minha opinião, um dos melhores contistas em atividade no país). Então vieram algumas resenhas favoráveis; a primeira de Márcio Almeida, crítico que admiro. O livro tem circulado bastante – o que começou com um lançamento abarrotado de gente. O retorno, quer da crítica especializada, quer dos demais leitores, é sempre muito importante para mim, naquilo que trazem de luzes e trevas. Acho interessante, por exemplo, que um conto destacado por um leitor seja considerado um dos mais fracos para outro, e vice-versa. Em todo o caso, as resenhas foram importantes para que eu me reconhecesse de fato escritor. Senti que , de um modo ou de outro, o dever tinha sido cumprido. Estava no caminho – e era um caminho sem volta.

KF – Você já está preparando um segundo livro. Do que se trata e quando sai? Está ansioso agora, já que o segundo livro é sempre esperado como uma comprovação do talento demonstrado no primeiro – ou é imune a esse sentimento?
RT – Pois então, desde que finalizei o “Do avesso”, em meados de 2009, até o livro ficar pronto, no finzinho de 2010, praticamente não escrevi ficção. Certamente foi o maior jejum desde que começara a escrever. Com o livro pronto, mesmo antes do lançamento, veio uma vontade incontrolável de produzir. Estava maturando há alguns meses uma ideia. Ela foi tomando forma e acreditava que poderia realizá-la em um romance. Então trabalhei no texto, diariamente, por cerca de um, dois meses. Enquanto escrevia, fui me apercebendo de que não seria um romance mas um conto  – trabalho, na própria trama, essas questões em tom metalinguístico. Daí foram surgindo outros contos e, em praticamente um semestre, notei que já tinha um livro. Contudo, por mais que o processo tenha sido infinitamente mais rápido do que o livro de estreia, os contos desse segundo trabalho são, de modo geral, um pouco mais extensos e – alguns mais, outros menos – os textos, tomados um a um, levaram muito mais tempo para ficar prontos. Mas, enfim, resolvi submetê-lo à apreciação da 7 Letras, editora que privilegia novos autores, pensando que poderia levar muito tempo para receber uma resposta. O aceite veio bem mais cedo do que eu esperava. A coletânea de contos chama-se “Silente” (título do primeiro conto, aquele que pensava inicialmente ser um romance, aliás o mais longo do livro), terá um posfácio de Rinaldo de Fernandes e sai no fim de 2012. E, se no primeiro livro, há o mergulho sensível no avesso das coisas, talvez haja no livro novo certa preferência pela linguagem silenciosa – questões, aliás, que se complementam e que se devem substancialmente às minhas leituras do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty. Quanto às expectativas, claro que elas se fazem presentes. Até porque sou muito crítico em tudo o que faço. Mas, dessa vez, eu me sinto mais seguro em relação ao meu trabalho. Se “Silente” irá agradar ou não, não tenho como saber. Eu espero que sim.

KF – Seu trabalho como psicólogo funciona como usina criativa para o escritor? Você vai ser como Tchekov ou Scliar, mantendo a literatura como atividade paralela à área da saúde até o fim da vida, ou pretende se tornar “apenas artista”?
RT – As duas áreas, cada uma com sua especificidade, estabelecem entre si, pelo menos da forma com que as trabalho, muita correspondência. Trata-se de um modo análogo de ver/ler/interpretar o mundo. Embora eu lide com saúde mental, privilegio a Psicologia em sua dimensão humana, isto é, enquanto um ramo das ciências humanas. O professor e crítico Antônio Cândido escreveu um lindo ensaio chamado “O direito à literatura”. De modo geral, ele defende a tese do acesso à literatura enquanto uma faceta central dos direitos humanos, porque possibilita ao homem conhecer o seu mundo e, por conseguinte, a si próprio. Talvez a psicanálise lide com algo parecido – o trabalho criativo de resgate e construção da própria letra, do próprio texto. Lido diretamente com essas correspondências e m minha carreira acadêmica, situada entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Meu próximo livro, aliás, será o trabalho a que me dediquei no mestrado: “Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em ‘Lavoura arcaica’” (Ateliê Editorial/Fapesp), a ser lançado ainda no primeiro semestre de 2012. Enfim, diria que me sinto fazendo arte também na Psicologia, e que minha literatura privilegia questões psicológicas, como de resto acredito reunir essas facetas nos meus trabalhos como crítico. E, sim, por ora o projeto é seguir nessas atividades; não faria sentido ser de outro modo.

KF – “Curtiu, descurtiu – assim bate o coração do facebook.”, você twittou e blogou. Você pode não ser um escritor afoito, como diz o Carrascoza na orelha de “Do Avesso”, mas publica constantemente esse tipo de microconto em seu twitter, os reúne no blog, replica no seu mural do Facebook. Que importância você dá para esse amplo compartilhamento social de suas criações – sejam elas metalinguísticas ou não? Elas brotam já na telinha do Twiiter, ou você passa dias lapidando a joia?
RT – Acredite ou não, isso tudo é novidade para mim. Nunca fui muito afeito às redes sociais ou a aparelhos tecnológicos de última geração, nem sei utilizá-los direito. Desde que surgiu o projeto de “Do avesso”, praticamente parei com as postagens no blog. Quando o livro saiu, transformei o blog em um espaço para divulgá-lo. Daí, cedi primeiro ao Twitter; meses depois, pouco tempo atrás por sinal, criei um perfil no Facebook. A motivação primeira foi – e ainda é – divulgar o meu trabalho. Mais recentemente ainda, vieram os microcontos a que você se refere. Passei a brincar com essas novas formas de criar, e procuro fazê-lo com poesia e crítica. Que cenário é este em que a distância entre escritor e leitor mede 140 caracteres? Não sei o quanto essa empolgação vai durar; acredito inclusive que já esteja passando. Seja como for, no geral, as frases surgem prontas ou, pelo menos, as ideias aparecem quase prontas. O exercício não deixa de ser interessante, bem como a interação com os contatos – leitores, no caso. Mas não crio falsas expectativas: por mais que o escritor precise estar no mundo intensamente, seu trabalho é, em larga medida, solitário. Sou bastante reservado nas minhas criações e não acredito que essa profusão de microcontos mude muito isso.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

Uma consideração sobre ““do avesso: uma estreia certeira” [entrevista de investigação #1: renato tardivo]”

  1. Excelente entrevista. Parabéns à entrevistada e ao entrevistado, que atingiram um diálogo de alto nível. Estou curioso quanto ao novo livro de Renato.

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