Bahia, tua primavera me bestifica

Estranha estrangeira

Katherine Funke*

Bahia, estou pensando em vender meus livros sobre política.
Teus casarões eternamente em ruínas arruínam minha inocência.
Bahia, mainha, acontece que eu não sou daqui e me sinto doente
ao ver tua transformação em São Paulo, em selva de esquecimento e nada.

Bahia, no caminho do Aeoroporto até a Barra
conto sessenta prédios em construção, um shopping, dois galpões,
duas passarelas, quatro terrenos recém-limpos, a paisagem toda mudada;
Eu viro o rosto para o outro lado, atônita com a bofetada, Bahia:
Do outro lado da rua vejo o mesmo pesadelo, e quatro gruas e um trator.

Por toda parte leio os anúncios dos novos condomínios. Não acredito ainda,
mas eles são reais e o concreto por trás é ainda mais concreto do que
minha pele estranha, estrangeira, lúcida mas impotente diante de tua desgraça.
A indignação de Glauber Rocha também é a minha, Bahia.

E estes versos são um lamento, um grito, um berro.
É claro que não se trata de ser contra o progresso,
Mas custava te olharem nos olhos, algum amor neles, em vez de ânsia?
Custava usarem alguma consciência nessa euforia?

Bahia, gastarei anos tentando aceitar o teu estupro,
Faço música e acendo incensos e rezo na chuva e acredito
que vais ficar boa um dia; maybe it’s the growin’ pain, as they say.
Mas como dói, Bahia, conversar com tuas marias.

(…)

Bahia, Saturno lá no alto me deixa solene e surda
Não vejo jornais na TV, nem leio o vespertino. Eu só me pergunto
se daqui a trinta anos ainda haverá Bahia
se os teus vermes já terão te transformado em Absurdo

Bahia, eu quero Castro Alves e cinema na praça,
quero o povo de novo no Carnaval, a rua livre para quem é dela.
Atrás dos muros, dos vidros fumês, nos gabinetes, nos camarotes,
te fodem, te furtam, te fazem de álcool e gelo. Tu és uma farsa.

(…)

Bahia, tua primavera me bestifica, mas eu fico triste depois do meio-dia
E durmo. De noitinha, deito na rede, serena e grávida da tua lua cheia.
No outro dia, entendo que tuas novidades são demais para minha alma velha,
e é por isso, Bahia, que como Ginsberg, vou uivar tudo o que puder, até o infinito.

____
(*escrevi esta poesia durante o processo criativo de “Sem pressa”, bolsa Funarte de criação literária, gênero narrativo, 2010. Acabei incluindo-a no material do livro, que ainda é inédito e contém crônicas de todos os tipos: contos, perfis, pequenas poesias em prosa e assim por diante. Posto-a aqui agora em homenagem à Primavera Baiana, o movimento Desocupa, que neste instante – noite de sábado, 14 de janeiro – acontece no bairro de Ondina, em Salvador. Sim, na forma é uma homenagem à America, de Allen Ginsberg. E o título saiu à Fernando Pessoa, o mais beat dos portugueses.).

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

9 comentários em “Bahia, tua primavera me bestifica”

  1. Entendo o seu lamento e choro também pelos pobres coitados que se deixam iludir pela promessa de que Salvador virará uma nova São Paulo, ainda por cima no que São Paulo tem de ruim. Criaturinhas dignas de pena porque destituídas de memória e de sensibilidade, incapazes de entender o que significa chorar pela integridade de uma cidade, pela incapacidade que os governantes dessa cidade tem de fazê-la sim crescer, mas de forma consciente e sustentável. Que os pobres complexados, de cabecinhas ocas e colonizados, incapazes de encontrar dignidade na própria bela e vilipendiada história de Salvador, se mudem logo para São Paulo, pra ser mais um “paraíba” perdido entre os arranha-céus da Paulista.

  2. Estive lá na manifestação. Também estou indignado com a Cidade da Bahia e encantado com a sua poesia; com aquela inveja positiva que as boas poesias causam nos outros poetas. Gostaria de publicá-lo em nosso jornal impresso e no blogue.

    1. sinto-me grata pela leitura e comentários, inclusive dos críticos mais críticos! pô, vou ficar feliz se seu jornal e blog publicarem, luiz edmundo, e incluírem o endereço deste blog nos créditos. valeu, até a próxima. um abraço.

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