de vez em quando, um trecho de rascunho perdido

Escreve-se para os vizinhos ou para Deus.
Tomei o alvitre de escrever para Deus
com o fito de salvar meus vizinhos.
(Sartre)

(…)

bóra recomeçar. uau. o bloco de notas até deu uma pirueta agora, de tão feliz. recomeçar. que palavra bonita. todos os meus músculos se retesaram e se soltaram. parece até que alguma revelação vai acontecer.

eu não sei porque procuro sempre esse momento da revelação, do contato com sublime, e quero tentar manter esse enlêvo em todos os momentos. talvez isso seja um erro, porque o sublime não está em todos os momentos – não, não, quero dizer: está.

está, mas você não deve ficar tentando atingi-lo, senão simplesmente vai perdê-lo.

o mais bacana desse ponto de encontro com o sublime é que mora no dia a dia e nas pequenas coisas, nos pequenos encantos. mas a visão de tudo tem que ser ampla, daí a fuga para o trivial e o retorno para o sublime, no eterno ciclo sonhar/sobreviver.

minha mente parece ser um objeto inatingível até mesmo para mim. aliás: prin-ci-pal-men-te para mim. mas, o.k. eu disse recomeçar. “perdi minhas ilusões fabulosas”, escreveu sartre. eu não perdi nada ainda.

ligo a câmera. me filmo escrevendo. seriam censurados esses vídeos se passassem na tv. mostram meu rosto em transe. nada mais. isso seria de enlouquecer. ou de mudar de canal. mostram barulho de teclado, de tecla enter criando espaço em branco. aí muda o fundo de tela do computador para cores laranjas e azuis vibrantes e parece mesmo que tudo vai ficar melhor.

sem dúvida a indústria das ilusões está cada vez mais avançada. juro: vi lábios carnudos e convites de amor na minha frente, mas isso talvez seja porque estou sentada diante do meu amor, meu amor com a boca aberta dormindo, boca aberta mas dentes cerrados, uma das pernas dobrada. ele não está quase em nunca em casa a esta hora, uma e treze da tarde. enter, enter. tela branca. ilusão.

bóra. tico-tecotico-teco-dã-dã-dã. eu fico assim por dias horas ligadas querendo que saia alguma coisa de tico-teco. dã: na verdade eu sei que se espremer não sai nada. só sai da vida. eu ia continuar a frase, mas acho que disse tudo. só sai da vida.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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