O show da desinformação

Para as grandes corporações de mídia, a ordem é esvaziar o sentido das palavras e fazer acontecer o espetáculo

por Katherine Funke*

“Cada ano, menos e menos palavras, e a gama da consciência sempre uma pausa menor”, descrevera o filólogo Syme para o camarada Winston Smith, em uma das refeições no Ministério da Verdade. E Syme explicara, deslumbrado com as próprias conclusões: “Todo o mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento, como hoje o entendemos”.

Através de seus personagens, George Orwell (1903-1950) assim descreveu a Novilíngua, na obra-prima “1984”. Felizmente, o idioma que paralisa a capacidade de pensar ainda não se estabeleceu – por completo – no mundo contemporâneo. Contra sua instituição total, aparecem termos fortes como “showrnalismo”, difundido pelo jornalista José Arbex Júnior.

O neologismo pode ter pronúncia estranha, mas sua existência é compreensível: vem da fusão de show e jornalismo. Ou seja, trata-se de um sinônimo do trabalho jornalístico realizado nos grandes veículos de comunicação. Inclusive naqueles em que ainda acreditam milhares de pessoas esperançosas.

A palavra é título do livro “Showrnalismo: a notícia como espetáculo” (2001, Ed. Casa Amarela, 290 pág.). Arbex Júnior, mais do que simplesmente diagnosticar a situação do jornalismo, ressalta as raízes políticas da linguagem e dos recursos técnicos da atividade de tecer o presente.

Baseado na própria experiência profissional, Arbex explica como as abordagens jornalísticas podem adotar, às vezes sem os editores perceberem, o pensamento único. E, conseqüentemente, impedir ao público a compreensão sobre determinados os fatos.

Para o autor, a lógica das grandes mídias deve ser criticada e denunciada pelos jornalistas para a sociedade civil. Afinal, sem uma forte frente de combate, os fatos continuarão a ser tratados como espetáculo, incompreendidos e facilmente jogados no “buraco da memória” – ou seja, esquecidos.

Unido aos livros “Jornalismo e Desinformação”, de Leão Serva, e “A Sociedade dos Chavões”, de Claudio Julio Tognoli, “Showrnalismo” faz parte de uma “geração 2001” de crítica à ação da imprensa. Sua leitura é instigante, a não ser que se concorde com idéia de que pensar é cometer “crimidéias”, o “crime” de ter idéias, como designava Orwell.

* artigo escrito ainda na faculdade de jornalismo, no Ielusc, em Joinville (SC). Desenterrado agora, que estou arrumando arquivos antigos do computador. Continua atual, não é mesmo?

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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