estudos para o romance “maria joão”

textura de uma pedra da cachoeira do buracão - em ibicoara

Só havia o Sol quando dei o primeiro passo, tal qual em Grande Sertão – “só aquele sol, a assaz claridade – o mundo limpava que em um tremer d’água. Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias”. Eu só tinha alegria. Que mais quereria? A minha travessia está apenas começando.

(A memória das pedras me dá mais sabedoria quando piso nelas sem sapato? Meus pés, e as pedras, sem nenhum filtro? Acho que não, acho que a memória da pedra só me vem pelo sonho – se eu dormir nela, para misturar minha alma na dela. )

texto 8. Pedras metafísicas | Ao caminhar pelas pedras da Chapada Diamantina temos contato com o “tempo profundo”. Entre blocos de gnaises e granitos e mosquitinhos de diamantes e principalmente rochas sedimentares, vivemos algo que entranha n’alma da gente, como escreveu o poeta João Cabral de Melo Neto em “A educação pela pedra”.

Li em “Chapada Diamatina – Águas no Sertão” que as formações sedimentares, comuns por aqui, são as mais jovens da região. Nasceram há cerca de dois milhões de anos atrás, oriundas de desertos, rios, praias. Tudo isso é explicado pelo movimento das placas tectônicas, que estão à deriva sobre o manto.

As placas vão se movimentando e causam a alteração dos materiais rochosos, o que pode gerar erupções vulcânicas e terremetos, a formação de novos oceanos ou placas continentais. A crostra terrestre, parte da região rígida externa do planeta, está em constante mutação, ao entrar em contato com a atmosfera e os oceanos.

É por isso que algumas pedras da Chapada podem parecer fundo de mar. Eram mesmo mar, milhões de anos atrás! Por aqui corriam rios, e um mar, que viraram deserto com a ação dos ventos, e depois foram congelados, e enfim viraram essas rochas sedimentares e outras formações que encontramos.

A história geológica da Chapada é bem doida. Coisa para cientista entender. Para mim, o fato é que adoro os arenitos acamados. Adoro os conglomoreados de seixos. Adoro os argilitos e os calcários. Adoro pensar que as pedras trazem a memória do tempo profundo e do tempo recente.

As pedras viram os gruneiros e os faisqueiros e viram os coletores de sempre-vivas e orquídeas e mocós e viram os primeiros turistas e os mais recentes, e me viram passar também. E ouviram os garimpeiros chorarem de solidão e os coletores de sempre-viva gritarem de fome, e os amantes gemerem debaixo das estrelas, e os turistas testarem o eco com suas vozes internacionais, e cientistas urrarem de felicidade com suas descobertas.

Elas são sábias, mais do que nós – e se falassem, não seriam tão perfeitas. Às vezes me pergunto: a memória das pedras me dá algum tipo de sabedoria em troca de meus pés em cima delas? E se eu estiver descalça? Não, não; só seria digna disso tudo se não desejasse tanto para mim. Eu não a possuo, não possuo nenhuma pedra, nem posso contê-la em algum bolso, caixa, gaveta ou conta bancária.

Eu só sei que vim das pedras, e as pedras do fundo dos oceanos, e o mar do big bang, e o big bang do desconhecido. E a partícula de Deus, que tanto se procura, ainda não se sabe se existe – mas já tem indícios de que o universo conhecido tem muito mais seres vivos do que podemos imaginar. (Cada galáxia tem umas cem milhões de estrelas, pelo menos; e do nosso sistema solar nem mesmo conhecemos tudo o que vemos… ).

Então as pedras estão mais perto do universo do que eu; em cima dos chapadões das serras, torno-me mais perto do Sol, mas minha natureza continua a ser humana e incompleta. Mas mesmo assim posso perceber que, durante uma trilha que demora horas, de repente você se torna um corpo em movimento & nirvana, livre, livre, livre de tudo, de qualquer sentimento.

Eis aí a lição não-científica, mas metafísica, que aprendi das pedras: apenas existir. E existir plenamente: não ficar nunca parada igual calango em cima delas; sou gente, e gente serve para errar por aí.


Estudos para o romance “Maria João”, escrito em parceria com Luís Claudio Daltro na Chapada Diamantina, agora, em 2010. Na fase de pesquisa, passamos pelos municípios de Mucugê, Andaraí, Ibicoara, Palmeiras. O livro está pronto, à espera de revisão e edição. O projeto foi viabilizado por meio do edital de apoio a criação literária da Fundação Pedro Calmon – Secretaria da Cultura do Estado da Bahia.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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