a minha flip

texto escrito em agosto/2010 e publicado no jornal A Notícia, de Joinville (SC).

Primeiro livro na mão, toda prosa, lá fui eu para minha estreia anônima na gigantesca Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.

Levei vinte e dois exemplares de “notas mínimas” (Solisluna), cada qual com suas 128 páginas de microcontos, e mais algo de novo e tenso na expectativa de ver todos aqueles exemplares comprados, admirados, lidos e comentados nos intervalos entre o must da programação.

Claro – meu livro era apenas um detalhe de nada no meio de todos aqueles momentos festivos e libertários em que o grande público ovacionava Isabel Allende ou incensava o personagem real Robert Crumb; ou a porção mais contracultural da plateia comentava, perplexa, a semelhança entre Gilbert Shelton e seus freak brothers, especialmente Fat Fredy.

Tive sorte: entre os milhares de visitantes, leitores compulsivos, criadores excêntricos e criaturas de Macondo, houve exatos vinte e dois que quiseram me ler. O lote de “notas mínimas” esgotou nos três primeiros dias, antes mesmo de ser lançado na Bienal do Livro de São Paulo.

Que pessoas boas essas, de espírito aberto, que dão bola para uma iniciante como eu.

Eu era a figura de um sorriso, com um metro e meio e vinte e nove anos de micromundos de palavras acumuladas, a atacar a multidão com o primeiro livro em punho, dotada apenas de um gogó silviossântico bastante novato e um tênis tão velho e surrado que pude sentir, a cada passo, a parte debaixo dos meus pés tomar o formato das pedras irregulares do centro histórico de Paraty.

Esses mesmos tênis velhos me levaram para a programação principal da Flip, uma das mais pops de todos os tempos. No primeiro dia, tudo irreal e improvável como nuvens de algodão-doce, arco-íris de conto de fadas e os romances épicos (mas também foi porque, às quatro da tarde, soube por um telefonema simpático que recebi uma bolsa da Funarte para escrever um outro livro, agora de crônicas, “Sem pressa”).

Aos poucos, porém, o elevador da realidade vai chegando ao térreo; é quando os moinhos de vento param de girar, as pedras deixam de ser nuvens e nem tudo se mostra tão perfeito e libertário quanto anunciado na campanha publicitária do evento. Nada mal, tampouco, por outro lado. Basta ter um pouco de boa vontade, entrar no clima geral de festa e se deixar embalar por vinho, poesia ou virtude – ou as três coisas juntas, se possível.

Da tenda do telão, vi Aline Crumb agradecer ao entrevistador Sérgio Dávila, da Folha de São Paulo, por não ignorar sua presença como criadora e desenhista ao lado de Robert Crumb. Aline tomou a palavra por uma eternidade de tempo, e uma dúzia de literatas cariocas, eternas fãs de Janis Joplin, anunciaram a decisão de ir embora mostrando o dedo do meio para os telões, ainda mo meio da palestra.

Elas estavam indignadas, e não só elas, com o fato da mesa mais esperada da Flip 2010 não discutir nenhum tipo de questão ligada ao tema ou à forma narrativa das HQs de Crumb e Shelton; em lugar disso, gastou-se tempo com elogios vazios às belezas naturais (das) brasileiras e outros assuntos menos específicos.

Assistir à Flip pelo telão, de tênis velho, ao lado de umas coroas que não deixam barato e de uma plateia aflita por um espetáculo mais convicente não parece ter sido muito glamouroso. E não foi. Mas, dessa forma, a gente se diverte o triplo e gasta quatro vezes menos do que se pagasse o ingresso para a tenda principal, onde a única vantagem é ver o circo ao vivo.

Às vezes não é preciso gastar nada. É possível simplesmente sentar do lado de fora do cercado pago da tenda do telão e ver e ouvir tudo com a mesma qualidade de som e imagem, às vezes até melhor acompanhado. Agraciados por um sol sensacional de inverno, daqueles de fazer inveja em joinvilenses, eu e mais umas duas ou três centenas de pessoas nos divertimos com a tenacidade de Isabel Allende, ídola massiva, aclamada ali como se fosse Madonna.

E pelo telão todos os proletários e pequenos burgueses ouvimos e vimos o crítico literário Edson Nery da Fonseca declamar de cor, com entonação e dinâmica perfeitas, os cento e treze versos de uma poesia escrita em 1926 por Gilberto Freyre (o homenageado oficial deste ano) sobre a Bahia, uma Bahia “de quase todos os pecados”, onde moro há oito anos. Esplêndido.

Sem gastar nada, ainda acompanhei a palestra-aula de Luiz Rufatto, um dos maiores romancistas brasileiros contemporâneos, em um auditório confortável e aconchegante, na Casa da Cultura. Na saída, conversei dois minutos com ele, esse semideus da prosa, um tipo generoso, disposto a compartilhar sabedoria com os novatos (na verdade, um careca de óculos, assumidamente jeca, vestido com uma camisa horrível do Flamengo). Nessa onda, ganhei, simplesmente por estar ali, tantos bloquinhos de anotação grátis que poderia escrever mais uns quatro livros neles.

A programação da OFF Flip, evento alternativo paralelo, também é totalmente free, ou quase; e se você souber chegar na hora certa, traça maravilhosos petiscos e coquetéis, temperados com a verve de algum escritor ou crítico literário de alta qualidade. Meus tênis, encantados pela alma das ruas, abriram caminho entre as pedras e me levaram para locais de meia-luz, ou luz negra, onde as discussões intimistas não eram apenas oba-oba midiáticos, os petiscos eram mesmo ótimos & fartos, e havia microfones abertos para que todo mundo pudesse apresentar sua literatura.

Nada melhor para um escritor do que poder ler seu texto para uma platéia satisfeita, calma, silenciosa, genuinamente atenta e ávida por isso. Além de treinar a oralidade, tive oportunidade de ser uma das trinta selecionadas para assistir à oficina literária da Flip, um curso ministrado nos três primeiros dias. O jornalista Juan Villanueva Chang, editor da revista peruana Etiqueta Negra e grande repórter acima de tudo, ensinou um bocado de estratégias úteis sobre perfis biográficos.

E teve mais: como Hunter Thompson ou Gay Talese ou Truman Capote ou Tom Wolfe ou outro dos grandes nomes do new journalism, de repente, ao final da última aula do curso, surgiu para mim a chance de dar uma volta de veleiro pela baía de Paraty, para experimentar, sem compromisso, quatro deliciosos sabores da cerveja Colorado, produzida em Ribeirão Preto (rapadura, café, mandioca e mel de laranjeira).

Pensei por um minuto. Fui. Vendi dois livros a bordo. Bebi quatro ou cinco garrafas e dois chopps. Mas o passeio freak de barco me fez perder a esperada fala de Ferreira Gullar, oitenta anos de poesia resumidas em uma palestra imperdível de uma hora. Depois, um companheiro de beatitude baiana me contou: sim, foi a arte feita vida, foi o máximo; e eu perdi – perdi por causa de um pouco de cerveja.

Mas, tudo bem. Na mesma noite, tive uma espécie de vingança boa, ao descobrir uma HQ de Gabriel Bá distribuída insistentemente pelas ruas, tão fácil de encontrar em qualquer esquina quanto panfleto de lançamento imobiliário. Na HQ, um escritor famoso conta as agruras de ser palestrante da Flip.

O rosto do protagonista vai mudando ao longo da história – vira Marcelino Freire ou Milton Hatoum. Ideia lisérgica e divertida que ajudou a dar à festa um pouco mais do ar pop que se esperava com Crumb e Shelton. Os desenhos de Bá fecharam a minha Flip em grande estilo; voltei com um bocado deles na mochila para distribuir aos amigos, uma caderneta cheia de anotações úteis fresquinhas e contatos pessoais de escritores, críticos e possíveis novos leitores.

No ano que vem, seja qual for a programação, mais ou menos pop, mais ou menos libertária, vou querer estar lá de novo ­­­– toda prosa, ou poesia, com um novo livro na mão, e um tênis velho que torne minha literatura um sujeito amalgamado às ruas históricas de Paraty.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

3 comentários em “a minha flip”

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