(( k_f)) o fagote do poeta

Sol a pino em Salvador. Asfalto derretendo. Faz dois ou três anos, ou mais. Ele veio caminhando, passo a passo, e parecia um santo. Ao redor do seu corpo, tudo brilhava. Era um anjo, um mestre, um sonho, um poeta, um beatnik, um buda, um facho de luz em movimento. Seus cabelos balançavam levemente com o vento, o casaco pesado garantia que o corpo magro não saísse do chão; quando chegou mais perto, vi que era o Wladimir Cazé.

Fiquei parada na calçada com cara de pessoa encantada. Meu amigo poeta estava com pressa. Não parou, mas me deu de presente um rápido meio-sorriso de alma elevada, ou elevadora de alma, como faz até hoje; e só pode criar esse sorriso porque, como poeta, suspende a rede de acontecimentos para localizar as belezas invisíveis e designar as incertezas com palavras. E então, assim que ele se foi, me lembrei de um verso de Manoel de Barros: “Se o homem toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação”.

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Autor: katherinefunke

http://twitter.com/micronotas

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