( um perfil que escrevi )


ESPÍRITO LIVRE
Antônio Paulo Almeida de Lima, 44 anos, mantém, há 18 anos, uma barraca de folhas na Avenida Garibaldi

Katherine Funke

A escadaria larga, de apenas quatro degraus, coberta por uma frondosa castanhareira-do-pará de tronco largo e milhares de folhas verdes, talvez ainda pudesse ser apenas mais um depósito informal de lixo da cidade, em plena Avenida Garibaldi. Mas uma transformação aconteceu numa tarde de data incerta, 18 anos atrás. De depósito de lixo, a área se converteu em território de Paulo das Folhas, 44 anos.

Naquele dia, Paulo vira o pesadelo se concretizar. Um trator finalmente derrubara o muro onde ele escorava sua barraca de folhas, nas proximidades do antigo Paes Mendonça. A tragédia já havia sido anunciada e, enquanto via as outras barracas sendo despejadas pouco a pouco por uma construção que crescia, ele tivera tempo de usar a cabeça para encontrar uma saída.

“O local já estava escolhido. Falei com o tratorista, ele botou minha barraca no trator e largou aqui na frente”, conta, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, apontando para o limite da escadaria com a avenida onde milhares de carros deslizam maquinalmente por dia. “Aqui era um depósito de lixo. Passei a tarde inteira juntando tudo, limpando e arrumando meu material”.

Naquela época, algumas construções vizinhas ainda não existiam. E a experiência de Paulo com as folhas ainda não era grande. Ele ainda se chamava Antônio Paulo Almeida de Lima. Tinha 26 anos e entrara no ramo havia pouco tempo, aconselhado por um amigo chamado Índio. Antes, vendera flores, doces, cigarros.

Sabendo que Paulo ajudava sua mãe desde a infância a buscar folhas no mato para as reuniões e os trabalhos que fazia em casa, o amigo deu o toque: “Por que você não joga umas folhas aí no meio dessas flores? O importante é começar, você tem o dom”. Paulo pensou: “Não custa nada”.

E assim foi. De conversas com os feirantes de folhas de São Joaquim, Paulo extraiu o conhecimento necessário para recomendar tal chá ou tal banho para alguém; para ir até a vizinha com a filha adoentada e entregar um punhado de plantas junto com a explicação de como preparar o xarope; para compreender o poder da natureza.

A mesma natureza o acolhera, em troca. Por muitos anos, Paulo dormia ali mesmo, em meio ao jardim que cultivava ou embaixo do mesmo tabuleiro que lhe dava sustento durante o dia. Para espantar o frio, um gole de cana. E plásticos. “Cansei de acordar na madrugada com uma ratazana passando por mim. Espantava e pronto”, conta.

Paulo dormia e acordava no seu território. Vivia o momento. Ali fez amigos, clientes, tornou-se cliente da vendedora de café, mingau e bolo. Espírito livre, foi plantando naquele domínio suas raízes, suas plantas favoritas, suas histórias, seus segredos. Faz 18 anos. “Me sinto preso aqui às vezes”, conta hoje, com os olhos atormentados de mistérios.

Liberdade
A liberdade é o valor que Paulo das Folhas mais preza. Da infância com a mãe e os sete irmãos no Calabar às noites dormidas na rua, da separação da esposa (“coisa de novela, feitiçaria”) ao trabalho autônomo, em tudo Paulo destaca a liberdade. “Minha mãe até briga comigo, porque sempre pensei minha vida assim, como é”.

Assim como não se vê como feirante num mercado (“gosto de ficar sozinho. Detesto bolo de gente”), ele detestaria ter de bater ponto e obedecer a um patrão. O único trabalho com carteira assinada foi aos 16 anos. Durou só um mês. Fazia e servia café e depois aproveitava o tempo livre para chupar manga no quintal da empresa. Notaram a “vadiagem” e deram vassoura e balde para ele. “Daí decidi que nunca mais iria trabalhar para alguém. Decidi investir minha inteligência em mim mesmo”.

Por estar em paz com sua decisão, Paulo garante nunca ficar estressado, chateado, mau humorado. “Por mais problema que tenha, ninguém nunca me viu zangado”. O amor ao álcool faz parte desse espírito. “Gosto da branquinha”, confessa. “Mas eu não páro para beber em bar. É de momento. Se meu gogó estiver coçando e meu ego estiver querendo, eu tomo”.

A vida mudou faz cinco meses. As responsabilidades cresceram. Os cinco filhos, que durante anos viveram com a sogra de Paulo, agora moram com ele, numa casa ali perto. Por causa da família e do trabalho, ele agora tem dias corridos. Acorda como sempre às 5h30 (“Se eu tiver tomado umas duas doses, acordo às 7h30”), toma um “banho de gato” e vai para a Feira de São Joaquim para repor o estoque.

Abre a banca na volta. A barraca, com todas as folhas que sobraram do dia anterior, agora dorme só, sem qualquer proteção contra roubo. Mas nunca tiraram uma folha de lá sem autorização de Paulo. “Quem tem conhecimento sabe que não pode usar sem pagar. Senão toma castigo da natureza”, explica o vendedor, com ar despreocupado de sábio, lembrando muito Dom Juan, de Castañeda.

Felicidade
“O que me deixa mais feliz na vida é ganhar dinheiro. Com uns R$10 mil eu resolvia meus problemas”. Por enquanto, a renda é pouca mas dá para sobreviver, com a ajuda de uma amiga da família para o aluguel da casa. Paulo toma banho de cipreste, que serve para chamar dinheiro. “É claro que só chama dinheiro para quem tem”, complica.

Antes de trabalhar, todos os dias, o vendedor se ajeita: passa um pente amarelo de dentes finos rapidamente pela barba de meses, já com fios brancos. Meio acanhado, ele quase se desculpa pela vaidade: “Gosto de estar sempre arrumadinho, em cima”. E dá risada. “Um dia ainda vou andar todo perfumado e tomar cerveja. Porque cerveja é coisa de barão”.

Enquanto sonha, Paulo das Folhas atende a clientes em quantidade variada – “tem dias que não aparece ninguém. Tem uma igreja aí levando muito cliente, fazendo a cabeça”. Os fregueses pedem folhas, receitas… e conselhos. Há quem o chame de “meu guru”. “Às vezes, só num bate papo a pessoa começa a sentir bem”. Mas ele nunca pára de aprender sobre a arte das folhas, pela qual é fascinado. Não lê livros, mas troca idéias com outros conhecedores. “Conversar é bom, porque tanto ensino remédio, quanto aprendo”.

Mas agora ele interrompe o papo para atender a uma senhora que pára o carro vermelho logo atrás da barraca, na rua de cima. Com agilidade, beatitude e silêncio, prepara uma sacola com as folhas necessárias para banho contra mau olhado. “Minha vida é uma correria. Peraí um pouquinho”, se lembra de gritar, correndo escada acima para atender à freguesa fiel. Lá vai Paulo das Folhas, seguir o caminho da liberdade.

publicado no jornal Correio da Bahia



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Oi, meu nome é Katherine Funke. Sou repórter numa revista em Salvador, capital da Bahia, no Nordeste do Brasil. Afora isso, curto escrever & fazer música a meu modo caseiro. Talvez você já conheça meu outro blog. Fico super agradecida por você por passar por aqui. Volte sempre!

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