( leia um conto )

O armário do chefe

Katherine Funke

Ninguém na área. Sábados e domingos, o escritório da Nunes Representações Comerciais, no sexto andar do Edifício Guararapes, no final da Rua Chile, fica às moscas. Cinquenta e sete funcionários esquecem de tudo por dois dias. Todos menos Rita, a secretária de Seu Nunes. Ela adora ir ao escritório nos finais de semana. Sozinha. Como era a primeira a chegar nos dias normais, possuía livre entrada no edifício e as chaves da porta principal.

Uma vez dentro, ligava o ar condicionado e desligava os telefones. Então, passava horas navegando a esmo na internet. Comia pipoca de microondas enquanto assistia a DVDs na sala de reunião. Podia andar sem sapato. Ou semi-nua. E o fazia. Já agia assim há quase um semestre quando se deu conta que deveria aproveitar a oportunidade para descobrir o que, afinal de contas, havia no armário secreto do chefe.

Era uma pequena caixa de madeira, com um metro de altura e meio de largura, que ficava ao lado da mesa. Seu Nunes o abria com um sorriso estranho nos lábios, depois de informar com sua voz grave que não queria ser interrompido por nada. Trancava-se na sala e fluía por uma hora daquele mistério: só ele e o armário. Depois, abria a porta alegre, pedindo um café. Acontecia sempre depois do almoço, umas três a quatro vezes por semana. Para o resto do mundo, Nunes estava em reunião.

Só Rita sabia que não havia reunião alguma. Mas então, o que havia? Todo o capital da empresa ia para um cofre em outra sala. Se não era dinheiro, o que poderia ser? Rita queria respostas. Para isso, precisava ter duas chaves impossíveis: a da sala do chefe e a do armário.Passou semanas obcecada com a questão. Teve pesadelos terríveis. Talvez Seu Nunes participasse de alguma seita obscura. Ela tinha que descobrir!

Nos finais de semana, agora passsava horas tentando invadir a sala. Mas não era nenhum Magaiver. De repente, a solução. Foi tudo muito rápido: um telefonema fez Seu Nunes sair afobado e entregar a ela uma pasta com documentos, o celular e o tão desejado molho de chaves:

- Preciso viajar. Emergência de família. Cuide de tudo. Volto daqui a dez dias.

Rita entrou em êxtase. Finalmente, as chaves! Mas ainda era quarta-feira. Sobreviveu à quinta e à sexta, como se nada tivesse acontecido.

No sábado, acordou mais cedo do que de costume. Mal tinha conseguido pregar o olho. Entrou no escritório com a mesma fluidez de sempre. Tirou os sapatos e, em menos de dois minutos, venceu o primeiro obstáculo. Sentou na enorme cadeira do chefe e girou-a para ficar diante do armário. Respirou fundo e encaixou a chave na fechadura. Abriu de uma vez.

Todo o conteúdo secreto pulou para fora: um mini-travesseiro; uma manta encardida de flanela xadrez; um walkman com uma fita K-7 escrito “Lullaby” de um lado e, do outro, “Para ninar”.
Então, aquele velho simplesmente dormia depois do almoço! Que frustante… Rita guardou tudo em silêncio. Permaneceu muitos instantes imóvel. Perplexa. Estarrecida. Depois, ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. Estava decidida a pedir demissão.

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