( outro conto )
Nota escrita em março/2012: de fato, este e o outro conto desta página foram escritos há muitos anos. Estou guardando os inéditos para livros, confesso. Mas volta e meia trago um deles à tona, como a história de c.
Uma hora no Caverna’s
Katherine Funke
“Now you can cry me a river. Cry me a river! I cried a river over you”, é o que propõe Julie London docemente para os clientes do Caverna’s. O ambiente é ermo – grandes janelas no meio de um denso jardim, luz baixa e velas acesas em algumas as mesas. E eu, ah, eu adoro essa música.
Mas tenho que pelo menos fingir prestar atenção no que diz um cara chato e repetitivo.
É um cliente bizarro este, um cara nauseante dotado de um incrível arsenal de redundâncias. Mas a gente agüenta, até se diverte.
Eu o escuto educadamente enquanto penso cá com meus botões como seria estar na pele daquela mulher ali na mesa 8. Hum, vestido colado, um decote envolvente, que lindo. Seu homem, um pedaço do céu. Não, não, não. Perfeito demais. Eles não devem se dar bem na intimidade. Meu deus, a que ponto cheguei; pensar isso me faz parecer uma comadre julgando a vida dos outros.
Na verdade, na verdade mesmo, eu queria ser a Julie London – hm, agora ela canta a maravilhosa “Love must be catching’on” – e meu coração bate mais forte, eu marco o ritmo com o pé direito e sorrio empolgada para todos que pedem cerveja, martini, conhaque, água. Uau, então a vida pode ser tão gostosa quanto essa canção? Claro, o relógio tic tac tic tac e o sem noção repete pela quarta vez a mesma história.
Toca o telefone. É minha tarefa atender. Desde que comecei a trabalhar aqui, aprendi a atender ligações com um jeito imbatível. Faço uma voz assim meio down caso o cliente esteja muito alegre e o contrário quando eles estão tristes. Bastante arcaico, mas divertido. Posso fazer um semi-morto idiota acordar para a vida e um estressado estúpido desligar em gargalhadas.
Desconfio que as pessoas ligam antes de vir só para se divertir comigo. Gasto uma energia das boas em papos, é quase uma terapia. Às vezes tenho intuições sobre o que está por vir. E nesse instante exato, pressinto que o telefonema é bom.
- Caverna’s, boa noite.
- Alô. Me diz uma coisa, vocês estão aceitando portfólios de bandas?
Era uma mulher, nem velha nem nova, nem alegre nem triste, uma profissional como eu, querendo saber mais sobre a programação cultural do Caverna’s. Saímos na TV local semana passada e volta e meia alguém liga interessado em subir no nosso palco. Como o gerente da casa está fora há semanas (suspeito que não volte mais) e a idéia foi mesmo minha, recebi a incumbência de selecionar as bandas.
- Claro. Você tem de vir entregar um disco demo com um currículo, pessoalmente, para que possamos conversar um pouco.
- Quando?
- Hoje.
- Hoje?
- Hoje.
- Mas já são onze da noite.
- Tudo bem, amanhã então. A partir das cinco.
- Pode ser às quatro? É que eu…
- Eu disse cinco.
Hm, o presságio foi até positivo, mas não se deve facilitar. O número de bandas que não valem nada é muito mais alto do que as que valem. Nos últimos dias, ouvi mais porcaria do que em todos esses 32 anos de vida. Não que o Taberna’s fosse lá essas coisas, mas a gente tá pagando cachê, sabe, não se pode botar qualquer porcaria no estabelecimento. Estou doida para ver esse som rolando. Por enquanto, ainda não encontrei a banda ideal.
Devolvo o fone ao gancho e na mesma hora chega Seu Rodolfo, o dono da padaria da esquina, que vem aqui todo arrumado uma vez por semana para tomar duas doses de cachaça. Há uns quatro meses, o cara sai da padaria, vai para a casa, toma banho, veste sua jaqueta de couro e vem para cá, sempre entre quarta e sexta-feira, certinho. O homem tem uns 70 anos mas ainda guarda o olhar e a postura de um jovem.
- Oi, mocinha.
Ai, confesso. Adoro esse Seu Rodolfo. Sotaque carioca de matar e ainda por cima vem com essa de mocinha. Ele sempre me cumprimenta igual, e eu sempre vejo a mesma cena de Kill Bill 2: aquele reencontro pouco antes do assassinato em que tudo parecia tão bem entre mocinha e bandido. Sempre.
Em seguida, sinto o velho pânico de achar que um homem entra atirando no Caverna’s (imagino um bandido vestido de bandido, capuz na cabeça, arma na mão e tudo – eu sabia, eu sabia, que não tinha estrutura emocional para assistir àquele filme).
- Oi.
Como sempre, os olhos verdes de Seu Rodolfo salvam a mocinha do pesadelo. Ele não tem culpa das minhas paranóias. Percebo-o ser cem quilos mais leve do que meu lado esquerdo do cérebro. Escuta, estão soando os primeiros acordes de People are Strange, do The Doors. Hm, gosto desse DJ. Legal é que Seu Rodolfo costuma perguntar o nome do disco que está rolando e anota a resposta numa agenda elegante, de capa de couro preto.
Sirvo a cachaça bem lentamente, uma dose para ele e outra pra mim. Não brindamos nem bebemos juntos, mas há um sentimento de companheirismo entre nós. Às vezes eu me dou o direito de dar um gole. Faz tempo que não me ocorrem flashbacks, só mesmo algumas paranóias fixas e bastante inocentes, como aquela em que meu vaso de samambaia se transforma em preto velho e nós dois conversamos meia hora sobre ervas medicinais. Mas depois eu conto essa, porque agora percebo Seu Rodolfo nervoso. Vou dar um help.
- O senhor está com algum problema?
- Não, não. É só…
- O que o senhor tem?
- Eu… Quero saber se você acharia bom se eu convidasse sua mãe para sair.
Ora, ora. Minha mãe, então, hein Seu Rodolfo? Meses e meses de labuta para fazer esse pedido, uau, eu tenho mesmo fama de má. Bem, bem, bem. Eu prometi para a velha que não permitiria nenhum abuso. Mas Seu Rodolfo é até respeitável. Nem se percebia aquela idade toda. E tinha aqueles olhos verdes. Bem, bem, bem. Ele era o mocinho da história, afinal.
- Olha, o que posso dizer? Se o senhor está mesmo disposto a enfrentar a fera, vai fundo…Eu não vou interferir.
Dou uma piscadela emocionada pro meu amigo de bar. Será que ele passaria a freqüentar minha casa também? O mundo é pequeno e tudo pode mudar em um segundo, é que penso alto enquanto limpo o balcão. Percebo ter falado dois clichês igualmente verdadeiros, duas sentenças simples e francas como um zé palito. Que revelação.
– Ok, mocinha. Obrigado.
O talvez futuro namorado da minha mãe não pede a segunda cachaça dessa vez. Sorri para mim e se afasta do balcão. Agradeço também. Não é todo dia que um homem gasta meses para conquistar a autorização de namoro para uma balconista de bar. Quem sabe esse não é o anjo que minha mãe tanto espera?
Ah, quase meia-noite. Tenho de me despedir de vocês, porque é hora de se concentrar no trabalho. Há algo de encantando no badalar da virada, eu sei que parece loucura, mas o fato é que em poucos minutos essa caverna onde me escondo fica igual formigueiro. E depois da visita doida de Seu Rodolfo, a noite de hoje promete.
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que visual loco!